cinema/televisão

Todo homem é um Harvey Weinstein / Louis CK / Kevin Spacey em potencial

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Uma das maiores birras dos homens com o feminismo é a ideia de que todo homem é um estuprador em potencial. Cada vez que alguém menciona isso, é uma enxurrada daquela frase que nenhuma mulher aguenta mais ouvir: “nem todo homem”.

Na verdade, o “nem todo homem” é usado indiscriminadamente em qualquer situação em que tentamos apontar o machismo sistêmico que contamina cada pequena instância da sociedade, mas essa é outras história. E hoje é dia de falar dos casos de assédios em Hollywood, amiguinhos!

Por que se tem uma coisa que essa avalanche de denúncias contra o produtor Harvey Weinstein, o ator Kevin Spacey, o comediante Louis CK e muitos outros mostra é que sim, todo homem é um estuprador em potencial. Basta que ele tenha em suas mãos o poder, a certeza de impunidade e uma cultura em que 1) as mulheres estão tão acostumadas a lidar com assédio que a gente bloqueia certas coisas, ri sem graça e segue adiante; 2) é a conduta sexual da mulher que vai ser julgada e examinada em cada caso, não a do abusador (“o que ela estava fazendo sozinha em um quarto com ele?”); 3) os homens são levados a acreditar que é seu direito básico e fundamental ter acesso a mulheres, ainda mais se forem poderosos/ricos o suficiente.

E antes que alguém me venha com “nem todo homem” mostraria o pau ao ficar sozinho com uma mulher desconhecida, ou tentaria levar alguma mulher gostosa para a cama em troca de dar um empurrão na carreira dela, já vou te dizer que os poucos que realmente nem pensariam nisso em geral não se comportam assim por terem boa índole ou caráter, mas por ter uma visão um pouco mais aguçada sobre o que as mulheres costumam passar todos os dias das suas vidas (a tal da empatia, sabe?).

São aqueles mesmos caras que evitam se postar grudados em uma mulher dentro do metrô lotado, ou que, tendo vários lugares vazios no ônibus/metrô/cinema/teatro, pensam duas vezes em sentar do lado de uma mulher, ou que andando na rua à noite, mudam para a outra calçada ou apertam o passo e ultrapassam quando veem uma mulher andando sozinha. Oi seja, que reconhecem sua posição de potenciais estupradores. Tudo isso não por ser “politicamente correto”, mas porque eles entendem o quanto situações tão banais são vistas como risco em potencial para a maioria das mulheres (empatia de novo, gente!). E são bem poucos. A maioria, do alto de seu privilégio masculino (e em geral branco, hetero e cis) nem pensa que o mundo pode ser sentido de forma diferente por gente diferente. E outros muitos ainda acham que não tem nada demais em invadir o espaço do outro/a com uma cantada, uma encarada de cima a baixo, uma passada de mão no cabelo na balada, uma conversa insistente com alguém que não está a fim…

A verdade é que a esmagadora maioria dos homens ainda não entendeu o significado de um não, do alto de suas masculinidades onipotentes (“Quem poderia resistir? Com certeza ela está fazendo charme”), e apenas isso já os deixa a um pequeno passo de se tornar um Weinstein, Spacey, CK, Polanski etc.

Eu, que nunca passei por nenhuma situação mais séria, levei a primeira apalpada na bunda com menos de 15 anos, ouvi todos os tipos de cantadas na rua mesmo quando coberta da cabeça aos pés, já tive que ameaçar um escândalo quando percebi que o cara do lado no ônibus ensaiava se masturbar, já tive um celular enfiado embaixo da minha saia para fotografar minha calcinha em uma loja, já levei cantadas de um cineasta enquanto fazia uma entrevista, já vi colegas tratarem colegas mulheres com uma intimidade incômoda, e já tive, com muita frequência, que me masculinizar e até ser um pouco agressiva para mostrar que eu não estava disponível. E isso porque eu sou uma das sortudas que nunca passou por nada mais traumático.

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O comediante Louis CK foi acusado de se masturbar na presença de mulheres com quem não tinha nenhuma relação

Esses homens eram todos psicopata/monstros/sociopatas/tarados? Claro que não, alguns eram até pessoas de quem eu gostava em outras circunstâncias. Eles simplesmente achavam que não havia nada de errado em fazer isso, como um Louis CK que se auto-justificava pensando que sempre perguntava se podia mostrar o pau antes de fazê-lo, mesmo que nunca nenhuma mulher tenha dito que sim e que a maioria delas estivessem em situação hierarquicamente inferiores a ele.

Outra coisa que todos esses casos famosos têm em comum é o clube do bolinha onde se fechava os olhos para esses “deslizes”, talvez até se fizesse piada, porque, afinal, “esse cara é brother, gente fina, meu amigo”. E esses brothers, gentes finas, amigos, são quem dão as cartas no mundo, e perpetuam seus clubinhos formados por pessoas iguais a eles, onde mulheres, LGBTQs, negros e outras “minorias” quando muito são acessórios. E, rodeados de iguais que se dão tapinhas nas costas, eles são incapazes de sentir empatia por quem é diferente, por quem tem uma experiência diferente do mundo, e assim continuam sendo sempre estupradores em potencial, mesmo que nunca o venham a ser na prática.

Os abusos e assédios sexuais são a ponta mais grave desse iceberg de corporativismo que exclui as “minorias” das instâncias de decisão, do poder, da política, dos cargos de chefia em empresas, da fama etc., e assim se perpetua eternamente, num enorme ciclo vicioso, que só tem alguma chance de ser quebrado quando as “minorias” assumem essas posições, porque estou aqui esperando sentada até hoje por homens com poder de decisão que realmente tenham empatia por quem é diferente e façam algo para mudar essa situação, para além do discurso progressista.

Então, não me venham dizer que precisamos “tomar cuidado com uma caça às bruxas”, que agora tudo vai ser denunciado, mesmo coisas menos graves de décadas atrás. Que bom que tudo vai ser denunciado, gente! Não precisamos nos ater apenas aos crimes que ainda não prescreveram –esses devem ficar nas mãos da justiça, embora a gente saiba que processos por violência sexual raramente dão em alguma coisa, porque é muito difícil provar. E nem devemos clamar para que os delitos “menores” (passar a mão na bunda, mostrar o pau, insistir em convites que a mulher não quer aceitar) sejam transformados em crimes graves. Sou contra essa criminalização de tudo, nem acho que o sistema penal seja eficiente para resolver isso.

O que eu acho que pode ser eficiente é mudar a cultura, é tornar todos esses comportamentos algo absolutamente inaceitável. E para isso é preciso sim que as denúncias venham à tona (de preferência em reportagens sérias e bem embasadas), que as vítimas de hoje, ontem e anteontem sejam ouvidas, que aqueles que erraram reflitam, desculpem-se sem concessões e melhorem (nos casos menos graves) ou sejam punidos (nos casos em que houve crime), e que a gente passe a mensagem coletiva de que nada mais disso será tolerado.

Não é caça às bruxas, não é linchamento virtual, e é claro que todo mundo erra de alguma maneira e, em muitos casos, merece a chance de aprender com os erros e se tornar uma pessoa melhor (parece que é exatamente o que aconteceu com o Dustin Hoffman, que se desculpou por ter assediado uma jovem no set de um filme nos anos 1970, e não teve sua carreira arruinada por isso; ou do Jason Momoa, que reconheceu quanto uma piada sobre estupros em séries de fantasia foi inaceitável, insensível, inadequada e de péssimo gosto).

Mas acredito que só expurgando esses demônios em praça pública é que vamos avançar de alguma forma. Não dá mais para tratar esse assunto no privado, não dá para colocar o indivíduo que vai sofrer represálias acima de qualquer coisa. Trata-se de mudar toda uma cultura, se não por fazer as pessoas refletirem, talvez por fazer com que se envergonhem ou tenham medo das consequências.

Por mais triste que seja, muitas vezes concordo com um amigo que diz: “educação é humilhação”. Não precisava ser, mas às vezes é o único jeito.

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