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Arya, Sansa, Daenerys e Cersei são destruidoras, mas “Game of Thrones” tem sim um problema com as mulheres

Daenerys

Vamos começar?

Não me levem a mal, eu adoro “Game of Thrones” e assisti empolgada à reestreia da série ontem (o Tyrion aí embaixo não me deixa mentir). E, como a maioria das fãs mulheres, fiquei animadíssima em ver as personagens femininas dominando a porra toda (Arya rainha, o resto, nadinha! Mais sobre isso no fim do texto).

Tyrion já tá pronto! #GoT7

A post shared by Natalia Engler (@nataliapru) on Jul 16, 2017 at 5:44pm PDT

É um sinal sim de que a série melhorou sim, e muito, o tratamento das personagens, mas não só demorou muito como não apaga alguns problemas sérios que impedem a gente de dizer que “Game of Thrones” tem uma visão feminista (lembrando: em linhas gerais, feminismo é acreditar que deveria existir equidade social, econômica e política entre os gêneros, não tem nada de ódio aos homens, apenas combate ao machismo e à misoginia).

Dragões, sim, igualdade, não

Como bem disse a escritora Roxane Gay no Twitter, é difícil entender por que os roteirista de filmes e séries de fantasia acham mais fácil imaginar um mundo habitado por dragões do que com igualdade entre homens e mulheres.

Gente, é fantasia, eles poderiam imaginar QUALQUER coisa. Inclusive, vejam só que inverossímil, que os homens e mulheres daquele mundo têm o mesmo poder. E dizer que mesmo a fantasia se inspira no nosso mundo, e que o passado do nosso mundo era misógino pra caramba, é só uma desculpa preguiçosa pra uma solução de roteiro mais preguiçosa ainda.

NÃO é um mundo realista e as coisas não precisam ser iguais ao que eram na nossa era medieval, e não é possível que essa tendência só seja subvertida em fantasias distópicas futuristas. Então, a não ser que um dos temas principais da série seja a desigualdade de gênero –“Olha, nós queremos mostrar o quanto esse mundo trata mal as mulheres, e como isso é uma merda e pode ser mudado”– não me venham com essa de “ain, mas daí não é realista”. Sim, não é realista mesmo, é fantasia, dã.

A prova de que desigualdade de gênero não é um dos temas principais de “Game of Thrones” está no fato de que, apesar de toda a lacração das garotas Stark, da Mãe dos Dragões e da nossa Rainha Louca preferida, Westeros continua sendo horrível para as mulheres. E essas todas que eu acabei de citar são a exceção da exceção, e mesmo elas passaram por umas merdas bem grande para chegar onde chegaram (ser estuprada por um psicopata sádico? Alguém?).

Enfatizar sempre a misoginia “realista” de um mundo que não é realista apenas reforça como normal essa misoginia, que continua tão presente nos dias de hoje (na Mary Sue tem um texto ótimo sobre isso).

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Ainda estupros?

Sim, ainda precisamos falar dos estupros em “Game of Thrones” sim, porque aqui, como em um número gigante de produtos da cultura pop, ele continua sendo usado para motivar personagens (às vezes as próprias mulheres estupradas, às vezes seus maridos, namorados, parentes etc. — sinceramente, não sei o que é pior).

Quando um roteirista procura uma motivação forte para uma personagem feminina, muitas vezes o estupro é a resposta mais fácil (e preguiçosa). Parece que os caras não conseguem pensar em nenhum outro tipo de experiência traumática ou de força motriz para uma mulher se endurecer, sentir raiva ou coisas do tipo.

Foi exatamente o que fizeram com a Sansa. Não bastou ela ser torturada psicologicamente por Cersei e Joffrey quando era ainda uma criança, ver o pai decaptado, ter a mãe e os irmãos assassinados, ser acusada injustamente de um crime, fugir com um sociopata manipulador etc. etc., a virada mesmo só veio depois de ser casada com Ramsay Bolton à força e estuprada por ele na noite de núpcias. Só aí a força da vingança começa a tomar conta de Sansa de vez.

Não tem como não concordar com a atriz e cineasta Jodie Foster quando ela diz que essa tendência de sempre apelar para o estupro é “rídicula”.

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Toda nudez será castigada?

Pelo menos a Sansa escapou de outra tendência ruim em “Game of Thrones”: o uso e abuso do nu frontal feminino, muitas vezes sem nenhuma justificativa. Das quatro personagens femininas que estão no centro da trama da sétima temporada, metade já apareceu totalmente nua (Cersei e Daenerys), só Sansa e Arya se salvaram. Mas antes que alguém diga que metade é um bom número, não podemos dizer o mesmo dos protagonistas masculinos: só Theon teve cenas de nu frontal; Jon Snow, Tyrion, Jaime Lannister, sir Davos e Sam não mostraram seus, hum, atributos até hoje.

Margery Tyrell, que os sete deuses a tenham, também não escapou, mas Robb Stark, Ned Stark, Robert Baratheon e muitos outros não tiveram que tirar a roupa para as câmeras (a Vulture fez uma lista dos nus frontais masculinos e chegou a um total de exorbitantes SETE cenas).

E, antes que alguém aponte, não tem nada de moralista nessa constatação: não sou contra nudez, sou totalmente a favor de tratarmos corpos nus com naturalidade, e inclusive não ia achar nada mau ver mais homens peladinhos nas minhas séries preferidas. Mas 1) tem que valer pra todos os gêneros igualmente, e 2) tem que ter alguma função na trama. Na maior parte das cenas masculinas, o ponto 2 foi respeitado, mas o mesmo não acontece com as mulheres.

Um exemplo aleatório: qual a necessidade, para a trama, de vermos a prostituta nua antes da morte do Meistre Pycelle, no final da sexta temporada? A gente já sabe que ele é um pervertido, então qual a função daquela moça sem nome, sem passado, sem personalidade e sem roupa? Ela aparece apenas como um objeto que ele usou para sua satisfação sexual (e que o espectador pode usar da mesma forma). Se isso não é a definição de objetificação totalmente gratuita do corpo feminino, não sei o que é.

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Por trás das câmeras

Tudo isso poderia ser melhor se a série tivesse um pouco mais de diversidade na sala de roteiro e atrás das câmeras. Em 61 episódios que já foram ao ar, apenas QUATRO foram dirigidos por uma mulher (Michelle MacLaren, que quase dirigiu “Mulher-Maravilha”) e só TRÊS foram escritos totalmente por mulheres (com mais um co-escrito por uma mulher).

Não estou dizendo que só mulheres conseguem desenvolver personagens femininas complexas, com arcos dramáticos interessantes. Pelo contrário, “Game of Thrones” no ponto em que está hoje é a prova de que existem homens que também conseguem fazer isso muito bem. Mas, para uma série tão criticada pelo tratamento das personagens femininas, não seria uma ideia no mínimo sensata trazer pra dentro da produção a visão justamente dessa parte do público que muitas vezes se sente mal representada?

E não deve ser nem tão difícil fazer isso, bastava que os criadores D.B. Weiss e David Benioff um belo dia decidissem: “Vamos contratar mais diretoras e roteiristas”. Talentos não devem faltar entre as mais ou menos 3 bilhões de mulheres que existem no mundo, não é mesmo? Mas já sabemos que isso não vai mudar nesta sétima temporada, que só tem homens à frente dos episódios…

ATENÇÃO, SPOILERS!

Sim, elas estão destruidoras mesmo assim

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Tudo isso não significa que eu não ame “Game of Thrones” e que não fiquei super empolgada vendo Arya abrir a estreia da sétima temporada já matando uma galera e vingando sozinha o Red Wedding.

Jon Snow é agora o único homem que ainda comanda alguma coisa –não por muito tempo, se ele continuar menosprezando a opinião da Sansa–, e até ele teve que colocar em prática um discurso igualitário ao defender que todos os homens E mulheres do norte sejam treinados para a batalha. Um discurso um pouco fora de lugar para alguém que ainda reluta em ouvir a opinião da irmã/prima, que já se provou uma melhor estrategista (a Batalha dos Bastardos só terminou bem porque Sansa conseguiu a ajuda dos cavaleiros do Vale… Você ainda não sabe de nada, Jon Snow!), mas vá lá…

De resto, temos Arya rainha da vingança. Sansa perdendo a paciência com Jon e perigando dar um chega pra lá nele. Cersei sentada no trono de ferro depois de tacar fogo em todos os inimigos (embora a gente saiba que o reinado dela vai ser curto). E Daenerys mandando uma Ludmila no fim do episódio:

Cheguei!
Cheguei chegando, bagunçando a zorra toda
E que se dane, eu quero mais é que se exploda
Porque ninguém vai estragar meu dia
Avisa lá, pode falar

Até a pequena Lady Mormont está mandando melhor que a maioria dos homens de Westeros, então só nos resta esperar que a série, depois de tantos erros, agora permaneça à altura das suas fãs e personagens mulheres.

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4 pensamentos sobre “Arya, Sansa, Daenerys e Cersei são destruidoras, mas “Game of Thrones” tem sim um problema com as mulheres

  1. Sinceramente, no lugar do Jon eu menosprezaria a Sansa do mesmo jeito, ela pode ter ajudado e pode estar ajudando muito ainda, mas não boto fé nela. Se fosse colocar a Arya do lado dela com certeza a Arya seria a mais inteligente e esperta e isso está comprovado nesse primeiro episódio, a menina virou uma assassina nata, a Sansa continua a mesma, a única diferença é que agora ela é movida por um ódio egocêntrico, não tirando a razão dela, acho que ela está mais do que certa. E na boa, concordo quando tu diz que só bastou o estupro pra ela ficar fria e querer vingança, senti a mesma coisa.
    Boa resenha 😉

    Hugs and Kisses

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  2. Juro que eu tentei, mas não consegui ler o texto. Por favor, não me chamem de fresco, só não estou acostumado. Não há maneira de ler o texto sem ter um gif se mexendo na tela!
    Se observar nos sites profissionais, isso não acontece.
    Enfim, tenho certeza que os argumentos eram bons e dou total apoio. Abraços.

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  3. ” NÃO é um mundo realista e as coisas não precisam ser iguais ao que eram na nossa era medieval ”

    CLARO QUE PRECISA. A série é sobre política, é óbvio que precisa ter um pé na realidade exatamente para entrar em contraste com a fantasia. Caramba, alguém com um mínimo de sanidade consegue discordar disso? Cara, eu achei que era um texto sério sobre o assunto e não alguém apenas querendo lacrar sem se ater aos fatos.

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  4. Pingback: Game of Thrones: A Mãe dos Dragões reúne seu time de mulheres poderosas | bitch pop

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