cinema

Novo “A Bela e a Fera” é uma lição sobre gaslighting

Entre altas expectativas e olhares desconfiados, Emma Watson, a maior heroína do feminismo pop e hollywoodiano atual, trouxe de volta às telas a história da mocinha que não se encaixa em sua pequena vila, é aprisionada por um monstro, mas depois descobre que, na verdade, ele é um bom sujeito e merece seu amor.

É claro que a gente poderia passar meses discutindo cada problema ou bom exemplo de “A Bela e a Fera”, e como a nova versão melhora ou piora as coisas, e muito se falou sobre a vontade de Emma de tornar a história mais feminista, mas eu queria falar sobre outra coisa: gaslighting.

null

Isso mesmo, gaslighting: violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.

E o que isso tem a ver com “A Bela e a Fera”? O problema da história não era a síndrome de Estocolmo?

Eu sinceramente não consegui ainda formar uma opinião definitiva sobre se Bela sofre ou não de síndrome de Estocolmo, mas tenho absoluta certeza de que o Gaston da nova versão é o mais perfeito exemplo de gaslighter.

Na animação, o valentão da vila não passava de um brucutu de inteligência limitada, que tinha a força como único recurso. Mas na pele do ator Luke Evans o personagem ganha mais nuances e crueldade, e um dos pontos dessa mudança é sua personalidade manipuladora, demonstrada na forma como ele tenta descreditar tanto Bela quanto seu pai Maurice diante dos outros habitantes da vila, para que pensem que eles estão fora de seus juízos normais.

Gaston usa dessa violência –que faz a vítima duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias e sanidade– com Maurice quando este o acusa de tentar matá-lo (sim, tem isso), e é imediatamente descartado como sendo uma pessoa desequilibrada. O mesmo acontece com Bela, quando ela tenta provar que o pai não está louco e que existe sim uma Fera, mas uma Fera amável e de bom coração –Gaston se aproveita do fato de que os habitantes da vila já a consideram estranha para acabar com a credibilidade do que ela está falando.

É tudo tão calculado, com objetivos tão precisos (obrigar Bela a se casar com ele no final, simplesmente porque ela é a única moça que não dá bola a Gaston e, portanto, fere seu orgulho), e executado de maneira tão manipuladora que achei que me senti em um curso “Feminismo 1: Como identificar formas sutis de machismo”.

Então, se você ainda acha que gaslighting é coisa da cabeça das feministas, preste bastante atenção nestas cenas e depois volte aqui pra me contar.

Princesas, ainda?

No mais, “A Bela e a Fera” ainda tem os mesmos problemas de sempre dos contos de fada: vender o amor e o casamento como o único caminho para o “felizes para sempre”. Claro que causa certo incômodo ver Bela se encantar por alguém que a mantém em cárcere privado, mas acho essa insistência romântica no casamento como único fim tão problemática quanto.

Pouco importa que Bela é inteligente e à frente de seu tempo, ela vai acabar como esposa de um homem bonito e rico, esta é sua recompensa, o que parece bem pouco pra alguém que vivia cantando “eu quero mais que a vida no interior”.

Mas, neste caso, é um problema conceitual e não adiantaria simplesmente mudar a história –precisaríamos sim contar uma nova história, não uma baseada em um conto de fadas do século 18…

Ainda assim, isso não nos impede de cantar junto com as canções que marcaram nossa infância e nos encantar com a magia dos números musicais –que, surpreendentemente, conseguem ser tão visualmente impressionantes quanto na animação.

E, mesmo sendo tão parecida com o original que às vezes nos perguntamos se precisava mesmo de um novo filme, a versão com atores em carne e osso traz algumas atualizações tímidas, mas muito bem-vindas, para desespero dos detratores do “politicamente correto”.

null

Pra começo de conversa, não temos mais que passar pela experiência dolorosamente incômoda de ver Bela reagindo às violentas investidas de Gaston com delicadeza e um sorriso no rosto –senti arrepios ao rever essa cena no desenho e lembrar de todas as vezes que sorri quando na verdade queria meter a mão na cara do sujeito que me assediava. Na versão de Emma Watson, Bela corta o barato do valentão de forma bem mais direta e ríspida, deixando bem claro que ele é um grosseirão e que ela jamais se interessaria por ele.

Bela também perde um pouco do seu lado sonhador e ganha em personalidade ao demonstrar certo desdém pelas pessoas de sua vila, que adoram julgá-la o tempo todo por ser diferente. Nada mais natural pra alguém que não se encaixa naquele ambiente –artificial era ela ser amável e graciosa com quem a criticava (corta para 15 anos atrás e poderia ser eu, em Ilhabela, antes de me mudar para São Paulo).

Ah, e a vila de Bela é um pouco mais diversa, com personagens de diferentes etnias, e, ainda que eles sejam absolutamente coadjuvantes, é mais saudável mostrar um mundo plural do que um universo homogêneo.

E, claro, tem a polêmica do primeiro “momento exclusivamente gay” da história da Disney. Uma polêmica quase infantil, porque tudo é tão rápido que quase passa despercebido –muito mais marketing do que representatividade de fato. Eu só não diria que existem personagens mais gays do que Lefou em desenhos mais antigos do estúdio (Timão e Pumba? Sebatian de “A Pequena Sereia”?) porque ele é apresentado com uma afetação bem pouco sutil –um tanto estereotipado, mas, talvez, ainda assim um avanço para um filme da Disney.

Anúncios

Um pensamento sobre “Novo “A Bela e a Fera” é uma lição sobre gaslighting

  1. Pingback: Links que valem o share: semana #137Fake-Doll

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s