cinema

Não, não houve estupro “de verdade” em “Último Tango em Paris”, mas isso não importa

ultimo20tango20enparis16Se você navegou a timeline de alguma rede social nos últimos dias, já sabe que a polêmica da semana tem a ver com a famosa cena da manteiga de “Último Tango em Paris”.

No filme, Marlon Brando é um homem de meia-idade cuja mulher se suicidou recentemente, que tem uma série de encontros sexuais com uma jovem francesa (Maria Schneider) em um apartamento em Paris. Na famosa cena, o personagem de Brando usa manteiga como lubrificante para forçar sexo anal com a garota (sim, um estupro), o que causou escândalo na época.

A polêmica de agora surgiu quando uma entrevista de 2013 do diretor Bernardo Bertolucci reapareceu na web, em que ele afirmava que discutira a cena com Brando sem avisar Schneider porque queria que a reação dela fosse verdadeira, a reação da garota, não da atriz.

Muita gente interpretou a fala como se o diretor tivesse planejado o estupro real de Schneider, então com 19 anos, o que ela mesma diz que não é o caso (em uma entrevista de 2007). Mas toda essa falsa polêmica esconde a verdadeira questão, quase tão horrível: o que Bertolucci e Brando fizeram não deixa de ser uma violação, ou, no mínimo, assédio moral.

O diretor veio a público esclarecer que a atriz só não sabia do uso da manteiga, mas que o estupro estava no roteiro. Na mesma entrevista de 2007, Schneider diz que só soube da cena na hora de filmar, que aquilo havia sido sugestão de Brando e não estava no texto, mas não especifica se está se referindo apenas à manteiga ou a toda a sequência do estupro. Nas palavras dela:

“Aquela cena não estava no roteiro original. A verdade é que Marlon teve a ideia. Eles só me contaram logo antes de termos que filmar a cena e fiquei com muita raiva. Eu deveria ter ligado para o meu agente ou pedido para o meu advogado vir ao set porque você não pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas na época eu não sabia. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, mesmo que o que Marlon estivesse fazendo não fosse real, eu estava chorando lágrimas reais. Eu me senti humilhada e, pra falar a verdade, me senti um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou ou pediu desculpas. Ainda bem que foi apenas um take”.

Como ela morreu em 2011, hoje só o diretor tem a possibilidade de se defender, e nunca poderemos esclarecer o que ela queria dizer, mas mesmo que a “surpresa” tenha sido apenas a manteiga, o que aconteceu ali não deixa de ser algo horrível – e que deixou marcas profundas em Schneider, que sofreu com depressão e vício em drogas por muitos anos após o filme e disse ainda que Bertolucci era manipulador.

Não, não houve violação física per se, e nem mesmo se encaixaria na definição mais ampla de estupro que existe na lei brasileira, por exemplo (“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”), porque, até onde se sabe, não houve ameaça ou violência física para que Schneider fizesse uma cena que não havia sido discutida com ela. O que havia era um ambiente tóxico, uma manipulação psicológica, uma assimetria de poder que estritamente falando não chegam a ser crime, mas ainda assim são um gravíssimo abuso.

Independente de qual parte tenha sido omitida da atriz, a questão principal é que um já consagrado diretor usou seu poder para filmar da maneira que queria uma cena extremamente delicada, discutida antes apenas com o ator e não com a atriz que seria a mais afetada, sem se preocupar com os efeitos que isso poderia ter sobre ela e sem dar a ela, uma jovem inexperiente, a possibilidade de negociar limites ou dizer não.

Sendo a cena em questão um estupro, as negociações e preparações envolvidas deveriam ser ainda mais cuidadosas, porque afinal estamos falando de um ser humano que pode sofrer danos reais, não de um robô programado para atuar – e a responsabilidade de preparar esse ambiente seguro deveria justamente ser do diretor.

E o caso de “Último Tango em Paris” não é o único. Em nome da “arte”, muitos cineastas abusaram psicologicamente (e às vezes fisicamente) de seu elenco, principalmente de suas atrizes.

Não é segredo nenhum que Stanley Kubrick torturou psicologicamente Shelley Duvall para extrair dela o pânico e histeria que queria ver em “O Iluminado” – também deixando profundas cicatrizes emocionais na atriz. Mais recentemente, Léa Seydoux acusou o diretor de “Azul É a Cor Mais Quente”, Abdellatif Kechiche, de obrigar a ela e a sua colega Adèle Exarchopoulos a repetir uma cena de sexo incessantemente diante de toda a equipe por dias.

O Sindicato dos Atores dos Estados Unidos diz que hoje os casos como esse são mais difíceis de acontecer, porque há mais mecanismos protegendo os atores e as cenas com nudez, sexo ou violência sexual têm que ser completamente negociadas antes de as câmeras começarem a gravar. Mas o caso de “Azul É a Cor Mais Quente” prova que essas coisas ainda acontecem – e os profissionais inexperientes, que estão tentando iniciar uma carreira, certamente são os mais vulneráveis.

E sim, Bertolucci deveria se arrepender muito da forma como tratou Schneider, ainda que a polêmica sobre um estupro “real” esconda a verdadeira questão: a misoginia que domina a indústria do cinema e permite que todo o tipo de abuso aconteça nos sets como se fossem coisas “normais”.

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