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Muito mais que pop: Beyoncé fez uma ode à força da mulher negra

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Como o universo inteiro já sabe, Beyoncé lançou um novo disco (mais ou menos) de surpresa no sábado (23). Com músicas potentes e às vezes melancólicas, “Lemonade” ganha ainda mais força na versão audiovisual, cheia de uma iconografia poderosa –da história afro-americana, da escravidão, de religiosidade, de mulheres negras, de um sul gótico–, algo que poderia facilmente ter saído de um livro de Toni Morrison.

Mas mais do que o impacto que o disco causou em mim (“uau”, basicamente), me chamou a atenção o que mulheres negras estavam escrevendo sobre “Lemonade”.

Elas enxergaram ali muito mais do que um possível desabafo sobre as traições de Jay-Z ou do pai de Beyoncé à mãe dela. Elas viram a representação de uma experiência coletiva das mulheres negras, de abandono, traições, violência, solidão, silêncio, força, apoio mútuo e redenção, apesar de tudo. Beyoncé se apropria das palavras de Malcolm X em meio a “Don’t Hurt Yourself” –“A pessoa mais desrespeitada da América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida da América é a mulher negra”– e junta suas dores às dores de todas essas mulheres.

“Esta expectativa de que as mulheres negras sofram em silêncio é passada de geração em geração. Beyoncé explora essa herança destemidamente (…). Gerações de trabalho, amor e negligência nos transformaram em grandes guerreiras. Nossa própria existência é um protesto. Beyoncé celebra a beleza e a força da feminilidade negra mostrando mulheres negras que não se renderam apesar da constante perseguição à sua negritude”, escreveu Ijeoma Oluo no “Guardian”.

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“Esta é a realidade e a fantasia de ‘Lemonade’: um belo borrão entre verdade e ficção, sagrado e profano, força e fraqueza, perspicácia e arte. Fardos herdados e, finalmente, salvação. É a história das, e para, mulheres negras jogadas de escanteio cuja fúria nos faz lutar por aqueles que se calam”, escreveu Clover Hope no Jezebel.

Eu, como mulher branca, embora profundamente tocada pela potência de “Lemonade”, posso apenas intuir essas conexões. Para entender melhor essas referências e essa identificação, e o que elas representam para as mulheres negras, conversei com a filósofa, ativista negra e feminista Djamila Ribeiro.

Bitch Pop – “Lemonade” me pareceu um grande tributo às mulheres negras, com muitas referências à história e tradições afro-americanas. O que você acha de uma artista com o alcance da Beyoncé trazer esse tipo de referências?

Djamila Ribeiro – Eu acho extremamente revelante, porque, como ela tem um alcance muito grande, ela traz referências importantes que as pessoas mais jovens às vezes não conhecem. Ela difunde isso, vai fazer com que de repente essas pessoas busquem se aprofundar sobre quem foi Malcolm X, por exemplo. Acho importante porque ela traz para o debate e para a mídia hegemônica, já que ela é uma mulher extremamente famosa e conhecida, temas que são extremamente relevantes, além dessa questão de ela se afirmar politicamente como negra. Porque até então ela não falava disso de maneira tão enfática. E o fato de ela se afirmar também acaba influenciando e servindo de inspiração para muitas meninas e jovens negras, já que ainda falta essa representação nos meios hegemônicos.

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A gente vê muitas críticas às artistas que se dizem feministas de que, como elas estão inseridas em uma lógica comercial, capitalista, isso talvez invalide a contribuição delas para o debate. Você concorda?

Essa questão da indústria cultural e do capitalismo já está posta. E sim, os artistas acabam se apropriando de questões como essa porque vai dar lucro. Isso é inegável. Mas a gente sabe o que é viver dentro de uma lógica capitalista, que vai se apropriando de vários discursos. Mas acho que de forma alguma isso invalida, porque muitas meninas que não sabem o que é feminismo, de repente vão querer procurar saber, vão querer se informar. Eu acho que, se você fica só por um lado, não percebe que a relação ali é dialética. Muita gente que não vive nessa bolha feminista que a gente vive, às vezes é um erro da militância achar que todo mundo está por dentro do que a gente está falando. Tem milhões de meninas que não vivem nessa bolha, que não sabem o que é isso, e que vão ter contato com o tema. Acho extremamente positivo. E entendendo que ela não é uma militante, ela é uma cantora, ela é uma artista. Quem quiser se aprofundar depois, vai acabar buscando os textos da própria militância. Mas, ela de repente pode ser o ponto de partida para isso.

Então, nesse sentido, é importante a questão da representatividade, das mulheres negras se verem representadas em uma artista negra, bem-sucedida, de poder?

Com certeza. Lembrando sempre que a representatividade tem um limite. Nem todo mundo vai se sentir representado por ela. Mas é importante, porque a gente vive em um mundo onde existe uma hegemonia branca. Quando a gente tem uma artista negra, ainda mais pautando essas questões como ela está fazendo agora, isso é extremamente importante, porque as meninas acabam se vendo nela. Claro que a gente tem todos esses limites de ser uma mulher rica, milionária, e tudo mais. Mas a menina olhar para ela e se ver positivamente, acho muito rico. Acho muito mais rico uma menina ter a Beyoncé como modelo do que como era comigo, que foram quatro gerações de paquitas loiras da Xuxa em quem eu não me via. Que bacana que hoje elas podem ter um ídolo que é uma mulher que se parece com elas. Não tem como negar esse poder. Apesar de entender que a representatividade tem um limite –porque não basta ser negro, não basta ser mulher, a gente vê muitas mulheres e pessoas negras reproduzindo uma lógica que acaba nos oprimindo. Mas reconhecer o limite da representação de forma alguma é invalidar a importância que ela tem. Sobretudo para grupos que historicamente não são representados nesses espaços.

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A gente também vê muitas discussões sobre a questão da sexualização, como artistas como a Beyoncé ou a Nicki Minaj estariam reproduzindo o estereótipo de hipersexualização da mulher negra. Outras pessoas acham que pode ser visto também como uma valorização da sexualidade e da beleza das mulheres. O que você acha?

Mais uma vez tem essa questão das artimanhas da indústria cultural, de querer vender. Não só ela, tem várias artistas, como a Miley Cyrus, outras meninas que vendem essa imagem da mulher liberta, que na verdade está dentro de uma lógica capitalista. Tem todo um interesse dessa indústria em vender essa imagem, quando a gente sabe que não é bem assim. A gente às vezes coloca muita responsabilidade no artista, mas esquece que tem toda uma indústria por trás. Qual a liberdade delas nesse sentido de querer ou não estar nesse papel? É uma coisa que eu questiono também. A bell hooks, que é uma feminista negra, acha que a Beyoncé faz muito mal para as garotas negras quando vende essa imagem do corpo perfeito, essa coisa da sexualização. Mas você também vai ter a Angela Davis dizendo que acha importante a Beyoncé trazer temas relevantes. É um tema que sempre vai nos dividir, mas o importante é não cair nessa polarização. Tem muito mais nuances aí no meio. Também tem um outro lado de meninas que vão ver isso como uma forma de libertação.

Na repercussão do disco, eu vi se repetir algo que é bem frequente em relação a obras de artistas mulheres, de imediatamente tentarem fazer ligações entre as músicas e a vida pessoal da Beyoncé. Me parece uma forma de desqualificar o trabalho das artistas mulheres. Você concorda?

Acho que sim. Acho muito ruim colocar nesse campo de querer tentar decifrar. Um disco é um disco. Isso acontece muito com mulheres, não só no mercado musical. Na minha área, na filosofia, acabam falando muito mais da vida pessoal da Simone de Beauvoir do que das contribuições filosóficas que ela traz, acabam colocando muito como a mulher do Sartre. Aí ela é muito falada, todo mundo já ouviu falar, mas são poucas as pessoas que realmente estudaram a obra dela a sério. Isso é muito comum em relação às mulheres, porque é uma maneira de diminuir. Ninguém fala em literatura masculina, em música masculina, isso é colocado como universal. E para a mulher eles marcam como “feminino”, e sempre no sentido de diminuir, de hierarquizar. A gente não pode cair no erro de reforçar esses estigmas. E justamente quebrar com esse falso universal, esse homem que se põe como universal. Ao mesmo tempo, existem escritoras que falam de si, a Beauvoir era uma autora que falava muito de si e achava isso importante. Tem vários escritores homens que também falam, mas isso não é visto como uma coisa menor. Só é ruim quando é uma mulher falando, cai no que chamam de “particularismo”. Quando é um homem, é genial.

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Eu vi muitos comentários sobre como algo que poderia ser uma experiência pessoal da Beyoncé é ampliado para refletir uma experiência coletiva das mulheres negras, de solidão, de uma espécie de “tradição” de manter silêncio em relação a violência e traições…

Essa questão do silêncio é uma coisa que as feministas negras falam já há muitos anos, sobre como é importante para as mulheres negras quebrar o silêncio em relação à violência. Existe realmente uma tradição, a Audre Lorde fala disso, a Alice Walker, a Angela Davis também. Porque a unidade negra de certa forma foi construída em cima do nosso silêncio, da mulher não poder falar da opressão que ela sofria por parte do homem negro pelo fato de o homem negro já ser discriminado. Ela não podia falar porque, se ela denunciasse, a polícia podia matar o companheiro dela. Acho importante que a Beyoncé traga essas referências. Por isso que acho equivocado quando as pessoas falam que ela está se apropriando. Ela é negra, então essa luta também faz parte da vida dela. Faz parte da trajetória dela como mulher negra, da forma como ela foi construída, e isso acaba sendo uma coisa coletiva mesmo, que acaba atingindo milhões de mulheres negras que tiveram as mesmas construções.

Você é fã da Beyoncé? Gostou do disco?

Pra você ver, eu nem sou fã dela. Eu estou aqui fazendo uma defesa dela já alguns dias, porque tem me irritado uma série de discursos desonestos –“Ah, mas ela está se apropriando”, “Porque o capitalismo…”. Qual cantor que não está na lógica capitalista? Qual o cantor que tem o alcance da Beyoncé que não está? E aí ficam atacando ela individualmente. E eu que não sou fã dela me surpreendi muito, gostei muito das referências que ela trouxe, do contexto que ela trouxe, e achei riquíssimo ela valorizar essas referências que abriram o caminho para nós. Essas escritoras que ela traz, trazer o Malcolm X. Para mim, é isso que importa, na verdade. Ela trazer isso para o grande público. Porque ela poderia não fazer. Mesmo tendo uma lógica que se apropria e que vê uma oportunidade de ganhar dinheiro com isso agora, ela poderia não fazer. Então, o fato de ela trazer desde “Formation” –as referências que ela trouxe dos Panteras Negras, e que eles gostaram da homenagem– é riquíssimo porque traz para o debate referências importantes para um alcance que a gente talvez não conseguisse de outra forma. Que bom que ela está trazendo essa mensagem e espero que possa inspirar e influenciar as pessoas a se aprofundarem nas questões.

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