literatura

Bela, recatada e do lar: Com ironia e feminismo, livro retrata geração das nossas avós

vida invisivel de Euridice Gusmao

Não é só no cinema que a representatividade é um problema: na literatura a produção feminina também não é proporcional ao espaço que as mulheres ocupam no mundo, como metade da população e mais da metade das leitoras.

No Brasil, uma pesquisa de 2012 mostrava que os escritores brasileiros eram em sua maioria homens (72,7%), brancos (93,9%) e heterossexuais (81%), e seus personagens também não eram muito diferentes: 62,1% dos personagens e 71,1 % dos protagonistas eram homens. Na literatura mundial, o número de prêmios Nobel dados a escritoras também reforça a ideia de que há um problema: apenas 14 de 112 vencedores.

Mas o vento parece estar mudando e a proporção de escritoras laureadas cresceu nos últimos dez anos, com quatro premiadas (Doris Lessing, Herta Müller, Alice Munro e Svetlana Alexijevich). No Brasil, uma olhada no catálogo de 2016 da Companhia das Letras, uma das principais editoras do país, também ajuda a reforçar essa impressão, com pouco mais da metade dos lançamentos inéditos de ficção, poesia e jornalismo escritos por mulheres, número puxado principalmente pelos selos Seguinte (para jovens) e Paralela (voltado para best-sellers e muitos títulos na linha “Cinquenta Tons de Cinza”), de grande apelo entre as leitoras.

Em meio a esses títulos da chamada “chic lit”, há pelo menos um que destoa: “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, primeiro livro de Martha Batalha, que bebe na tradição da melhor literatura feita por mulheres –Virginia Woolf, Clarice Lispector, Jane Austen, Alice Munro e, mais recentemente, Elena Ferrante (aclamada autora italiana que não revela sua identidade)– e surpreende pelo sutil e irônico toque feminista.

A própria ideia que inspirou Martha a escrever o livro vem de uma tradição feminista: “Eu fiquei imaginando o que aconteceria com uma mulher brilhante se ela nascesse nesse tempo e nesse lugar [Rio de Janeiro da primeira metade do século 20]. Acho que veio dessa hipótese, que na verdade aconteceu muito, de você ter mulheres perfeitamente capazes e com energia para produzir, e que não puderam se realizar naquela época”, Martha me contou, em entrevista originalmente publicada no UOL.

É uma premissa muito semelhante à de “Um Teto Todo Seu”, da Virginia Woolf, em que ela examina a condição da mulher escritora, o quanto a escrita dependia de ter uma renda e um espaço privado para escrever, e imagina o que teria acontecido caso Shakespeare tivesse uma irmã igualmente brilhante –uma vida nada fácil e completamente anônima.

No caso de Martha, a mulher brilhante é Eurídice Gusmão, uma filha de portugueses que vive na Tijuca, e que se frustra com a falta de estímulos da vida de dona de casa, lançando-se em projetos para ocupar seu tempo –a cozinha, um livro de culinária, a costura etc.–, todos encerrados pelo marido, que exige dedicação total ao lar e aos filhos. Do outro lado está a irmã mais velha, Guida, igualmente inteligente, mas que leva uma vida à margem dos padrões, e também sofre com isso.

Martha Batalha 4_crédito Jorge Luna

A escritora Martha Batalha (Imagem: Jorge Luna/Divulgação)

‪”Bela, recatada e do lar. É a descrição da protagonista do meu livro, Eurídice. A diferença de Marcela Temer para Eurídice Gusmão é que Eurídice nasceu na década de 1920″, Martha comentou em seu Facebook, comentando a repercussão de um perfil publicado pela revista “Veja” sobre a mulher de Michel Temer, em que exalta a discrição e recato da perfilada.

Outra parte da inspiração veio de experiências muito mais próximas. “Muito do livro são histórias da minha família, histórias que eu peguei da pesquisa histórica imensa que eu fiz. É um livro que quem tem mãe e avó que viveram naquela época vai se identificar com essas histórias. E acho que também é aquela coisa que todo mundo fala, de você escrever sobre aquilo que conhece. E é aquilo que eu conhecia, a vida de classe média na Tijuca, que é um bairro de classe média do Rio de Janeiro super conservador”, diz a escritora.

“Eu sou uma pessoa muito indignada com todas as injustiças –do Brasil, do dia a dia, de classe social, de tudo. Quando fui escrever, entendi que tinha que escrever sobre as injustiças que eu mais conhecia, que é essa injustiça que a gente vê acontecer o tempo todo e às vezes nem percebe, essa questão das mulheres. Eu sou uma mulher de classe média, de uma família tradicional do Rio de Janeiro, da Tijuca. Essa é a minha perspectiva, acho que tenho que escrever sobre essas coisas”, explica.

Foi esse relato sobre a condição feminina que chamou a atenção do produtor de cinema Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos do livro e está preparando um filme, com direção de Karim Aïnouz.

“O livro me interessou porque é muito próximo a situações que eu conheço. Eu vi mulheres muito parecidas com elas [as personagens do livro]. Tias, avós, pessoas próximas à minha mãe, que tiveram realidades similares ao que essas mulheres viveram nos anos 1950”, conta Teixeira. “Eu olhava aquilo e pensava: essas histórias eu ouvi na sala da casa da minha avó, no clube, no jogo de cartas domingo à noite, quando eu ficava brincando com os meus bonecos no chão e ouvia minha vó e as amigas conversando. E, ao mesmo tempo, existe uma crítica à condição das mulheres nos anos 1940 e 1950, até o início dos 1960. E uma ironia em cima do homem, da posição do homem. O que eu acho incrível, porque é um humor, um drama de como esses homens viam as mulheres. Isso é tão legal, tão atual, que eu acho que merece uma adaptação”.

Sofia Mariutti, responsável pela edição do livro dentro da Companhia das Letras, também foi atraída pelo feminismo. “Eu me interessei ouvindo o resumo entusiasmado da agente, Luciana Villas-Boas, especialmente pela temática feminista”, conta. “O livro bateu na porta no momento perfeito, com as narrativas feministas ganhando tanta força no Brasil. Acho que ainda falta olhar para a nossa história e recriá-la com o olhar das mulheres de hoje. Vejo muitas mulheres de hoje falando sobre suas próprias experiências, e a Martha foi atrás de pesquisar e recriar as histórias das nossas avós. Não eram tantas que escreviam naquela época e que podiam contar sua versão das coisas, então é quase um dever das mulheres de hoje recontar essas histórias”.

Ainda que o feminismo –que voltou a mobilizar a opinião pública no Brasil em 2015– ajude a abrir as portas para mais narrativas sobre a experiência feminina, Martha reconhece que a literatura feita por e sobre mulheres muitas vezes ainda é relegada a um nicho. “É uma injustiça danada. Philip Roth é universal, Paul Auster é universal, mas Elena Ferrante escreve para mulher”, aponta Martha. “Se você for ver, o número de mulheres que ganharam o prêmio Nobel é mínimo. Acho que o mercado é muito masculino nesse sentido”.

Comentando esse rótulo que muitas vezes as escritoras recebem, Sofia cita um ensaio de Heloísa Buarque de Hollanda para explicar: “Quando você vê a imaginação feminina no poder, você se dá conta de que a mulher subverte isso que é esperado que ela escreva. E assim é com a Martha, quem espera da literatura feminina uma história de princesa com um toque de erotismo e melodrama não vai encontrar nada disso aqui. Vai encontrar pesquisa histórica, frustração e obstinação das mulheres”.

A editora também acredita que o mercado editorial está se abrindo aos poucos para as mulheres. “Esse movimento não é organizado, mas é inevitável. As editoras se atentam aos temas que estão movimentando as pessoas, então não dá mais para fugir do feminismo. E o nosso papel nessa hora como mulheres é usar o nosso crivo para filtrar o que tem de bom. Eu tenho lido quase só livros de mulheres, mas isso não quer dizer que só por ser mulher ou ter mulher como protagonista vai ser publicada, precisa ter excelência”, opina.

“Uma coisa é certa”, aponta Martha. “A maioria dos leitores é mulher, no Brasil e no mundo todo. Acredito que o tempo vai colocar todo mundo no lugar certo. Acho que está mudando”.

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