comportamento/mulheres inspiradoras

O circo de horrores do impeachment foi também um show de machismo

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17.abr.2016 – Sessão especial para votação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (Imagem: Câmara dos Deputados)

Ainda não encontrei ninguém que não tenha se horrorizado com o circo em que se transformou a votação pela abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no último domingo (17). Mas à parte os desvios em relação ao que de fato estava sendo julgado, o que saltou aos olhos foi o show de machismo dado em rede nacional.

Em primeiro lugar, o que vimos foi um desfile formado majoritariamente por homens brancos, heterossexuais, cisgênero, de meia idade –nem de longe a parcela mais numerosa da população brasileira.

Segundo dados levantados depois da última eleição, em 2014, 90,1% dos deputados são homens (462 homens e 51 mulheres),  79,3% são brancos (106 se auto-declararam negros –somatória de pretos+pardos*–, 20,7% do total; desses, 11 são mulheres –0,6% do total, contra 25,38% na população brasileira) e nenhum indígena foi eleito. Até onde se tem notícia, o único parlamentar LGBT é Jean Wyllys.

Se lembrarmos que, segundo o último censo do IBGE (de 2010), as mulheres são 51,03% da população, e os negros (pretos+pardos) são 50,7%, é óbvio que a câmara não representa a maioria da população, mas sim uma minoria privilegiada, e não espanta que projetos de interesse dessa maioria nunca avancem. Há também uma disparidade de idade entre os deputados e a população: o brasileiro médio tem 31 anos, contra 50 dos parlamentares.

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Há inúmeras razões para a sub-representarão dessas parcelas da população no parlamento e pessoas mais especializadas já deram explicações melhores do que as que eu poderia formular.

Pela família e por deus

Mas não é só isso. As justificativas dos votos, que praticamente não lembraram do motivo pelo qual a presidente está sendo avaliada, não só foram bizarras como deixaram claro quem são esses parlamentares, que votaram, em grande parte, “pela minha família” e “por deus”. A primeira justificativa escancara o caráter personalista que os deputados dão a seus mandatos –o que importa são os seus próprios interesses, não os da população que representam. Ao lado da segunda justificativa, também deixa claro que essa “família de deus” é um modelo muito específico de família, que subentende a exclusão da população LGBT e a submissão da mulher. Todos esses votos “pela minha família” e “por deus” (curiosamente em sua maioria a favor do impeachment) foram votos homofóbicos, transfóbicos e misóginos (houve até ataques diretos nesse sentido).

Esses deputados “de deus” representam a bancada da bíblia, formado por conservadores supostamente cristãos, que ignoram o fato de que o estado é laico para impor suas convicções religiosas a toda a população. São eles os culpados por aberrações como o estatuto da família (que determinaria que família só pode ser formada por homem e mulher), o estatuto do nascituro (que pretende dar mais direitos a células recém-fecundadas do que à mãe) e o projeto de lei que tenta dificultar a profilaxia da gravidez e o aborto em casos de estupro, entre outras coisas. E tudo isso, claro, sob a chefia do gângster mor, Eduardo Cunha.

Foram essas propostas que os deputados esfregavam na nossa cara no domingo, quando falavam em deus, certamente rindo-se das nossas caras internamente. E o ápice dessa afronta foi, como já era de se esperar, o voto de Jair Bolsonoro, que dedicou-o ao torturador-chefe do DOI-CODI de São Paulo, o “o coronel Carlos Aberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

Não sei vocês, mas eu ainda fico chocada com as pessoas que têm a desfaçatez de defender a ditadura e seus torturadores em voz alta.Me parece algum tipo de distúrbio mental de incontinência verbal. Uma fala como essa, na “casa do povo”, não é só uma afronta à democracia e uma ofensa à presidente da República, é um desrespeito a todos que sofreram nas mãos daquele monstro e a seus familiares, além de uma clara apologia ao estupro. Sim, ao dedicar seu voto a Ustra, Bolsonaro chancela que é válido “punir” qualquer pessoa com abusos sexuais –Ustra era conhecido por mandar introduzir ratos nas vaginas das presas políticas, por exemplo. O deputado deveria botar em prática sua crença de que “bandido bom é bandido morto” e praticar logo a eutanásia.

Manterrupting

Como se já não bastasse, todas as vezes em que uma mulher subia à tribuna para dar seu voto, o show de misoginia era elevado à centésima potência. Sobre as mais jovens, favoráveis ao impeachment, choviam os “””elogios””” de “linda!” ou “princesa”. Se o congresso agora é concurso de miss, os “nobres” deputados deveriam começar procurando bons cabeleireiros para acabar com aquele tom de acaju mal tingido que predomina em suas cabeças, não?

As demais deputadas tinham seus votos abafados por urros e gritos de “vota logo” e interrompidos por Eduardo Cunha com seu “vota como, deputada?” (reservado somente aos votos contrários ao impeachment, “coincidentemente”), um caso claro de “manterrupting”, como as feministas chamam o ato machista de sistematicamente interromper as falas de mulheres.

Pela TV, ainda se via deputados tentando cobrir o rosto de suas colegas com cartazes favoráveis ao impeachment, para que não aparecesse na transmissão –que felizmente trocava de câmera nesse momento. Uma deputada que não compareceu por estar em licença maternidade foi vaiada.

Tchau, querida

E teve o “tchau, querida”. Fazia sim referência ao diálogo entre a presidente e Lula, divulgado indevidamente pelo juiz Sérgio Moro, mas quem usa essa justificativa esquece-se de um “detalhe” importante: expressões como “querida”, “linda”, “flor”, “amor” etc., quando usadas para se dirigir a mulheres com quem o interlocutor não tem intimidade (diferente de Lula, que tinha sim intimidade para se dirigir assim à presidente), servem única e exclusivamente para diminuí-las e desconsiderar as posições públicas que ocupam no mundo. É, no melhor dos casos, uma forma condescendente de se dirigir a alguém que você considera inferior. Mas na maior parte das vezes é só desprezo mesmo

Dilma Rousseff não é querida de ninguém além de seu círculo íntimo, é a “Excelentíssima Senhora Presidente da República” (ou presidenta, como ela prefere), e duvido que qualquer um daqueles deputados e dos que reproduziram o meme se dirigiriam a seus chefes homens como “querido”.

O uso do “querida” também está impregnado de uma necessidade de lembrar às mulheres a sua função no mundo machista: a de ser agradável, delicada e amigável. Por mais que discorde frontalmente da política de governo da presidente, frequentemente me identifico com ela e me solidarizo pelos ataques que ela sofre por ser uma mulher “difícil”, como eu também sou, frequentemente tachada de “agressiva”, “inflexível” e até “histérica”. E mulher que bate de frente com homens, minhas amigas, é algo que os machistas não suportam.

* Nomenclatura usada pelo IBGE

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