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Geena Davis: “Ainda são poucas as oportunidades para as mulheres interpretarem protagonistas complexas”

3_12_2015 - Evento de arrecadação de fundos An Evening With Geena Davis, na William Turner Gallery, em Los Angeles (Credito - Reprodução, Facebook, Geena Davis Institute on Gender in Media)

3.dez.2015 – Geena Davis participa de evento de arrecadação de fundos em Los Angeles (Imagem: Reprodução/Facebook/Instituto Geena Davis)

Talvez você só a conheça como a Thelma de “Thelma & Louise”, filme que se tornou símbolo de como o mundo é um lugar hostil para as mulheres, mas Geena Davis tem muito mais para contar. É claro que a personagem marcou a vida da atriz como nenhuma outra, mas nos 25 anos desde então Geena não só abraçou outros bons papéis, mas também se tornou uma espécie de embaixadora da igualdade de gênero no cinema.

“Eu certamente me considerava feminista antes disso”, conta ela. “Não vejo isso como controverso, adoto a definição do dicionário, que é bem simples: alguém que acredita que as mulheres deveriam ter direitos iguais. Mas definitivamente ‘Thelma & Louise’ foi um grande lembrete. Eu estava conseguindo papéis muito bons, então presumi que os filmes estavam melhorando, mas nada disso era verdade”.

Não era verdade porque as mulheres continuaram sendo minoria no cinema, na frente e atrás das câmeras, situação que não mudou consideravelmente até hoje –o que é comprovado pelas pesquisas do Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia, criado pela atriz há dez anos para investigar o espaço das mulheres no cinema e travar diálogos diretamente com os produtores de conteúdo.

“Nossas pesquisas mostram que nada mudou em relação à representação das mulheres na mídia [desde “Thelma & Louise”]”, conta. “Ainda são poucas as oportunidades para as mulheres interpretarem protagonistas complexas”.

Agora aos 60 anos, quando não está filmando, Geena divide seu tempo entre viagens, discursos e reuniões com estúdios e criadores de conteúdo, sempre na luta por melhorar a forma como o cinema e a TV representam as mulheres. Ela concedeu a entrevista a seguir por telefone, de Los Angeles.

Seu nome hoje é sinônimo de luta por representatividade para as mulheres no cinema e na TV. Quando você resolveu abraçar essa causa?Durante a maior parte da minha vida adulta eu me interessei pelo empoderamento de mulheres e meninas, mas foi quando a minha filha era pequena que eu percebi um grande problema na mídia para crianças. Fiquei realmente chocada quando comecei a assistir filmes e programas feitos para crianças bem pequenas, em ver quão poucas personagens femininas havia. E decidi que, em pleno século 21, deveríamos estar mostrando para as crianças que meninos e meninas têm que dividir a caixa de areia igualmente. E foi assim que tudo começou.

Bem antes disso, há 25 anos, você estrelou “Thelma & Louise”, um filme que até hoje é considerado um marco feminista. Como isso impactou a sua carreira?
Teve um impacto muito grande, realmente mudou minha vida fazer parte desse filme. Eu nunca tinha passado por nada assim. As pessoas não queriam só dizer “ah, eu sei quem você é”, ou “eu gostei de ‘Os Fantasmas se Divertem'”, ou algo assim. Elas queriam me contar o que o filme significou para elas, como as impactou, com quem tinham assistido, quantas vezes tinham assistido. Porque ele realmente mexeu na ferida, e isso me fez perceber quanto era raro que as mulheres do público pudessem se identificar com personagens femininas, como era raro que fossem as personagens mulheres a estar no centro das atenções e a fazer coisas emocionantes. Isso mudou toda a forma em que eu escolhia papéis e como eu enxergava a representação das mulheres na mídia. Depois disso, em vez de só pensar no que era interessante e desafiador para mim, eu comecei a pensar também “o que as mulheres do público vão pensar da minha personagem? Vai ser desencorajador para elas? É alguém com quem elas vão poder se identificar?”. Foi uma experiência muito única, nunca tive uma experiência assim antes ou depois disso.

entre 2010 e 2013, só 23% dos filmes de maior bilheteria nos 11 maiores mercados do mundo tinham mulheres como protagonistas (fonte: Instituto Geena Davis)

Você acha que a mensagem de “Thelma & Louise” continua atual 25 anos depois?
Com certeza. Nossas pesquisas mostram que nada mudou em relação à representação das mulheres na mídia. Se algo mudou, foi que as representações hoje são mais sexualizadas, e com personagens mais jovens. Mas ainda são poucas as oportunidades para as mulheres interpretarem protagonistas complexas, ainda são os mesmos limites, infelizmente não mudou nada. Muitas das reações da imprensa anunciavam que “Thelma & Louise” mudaria tudo, que veríamos muitos mais filmes protagonizados por mulheres, mais filmes de duplas femininas, coisas assim, mas nada mudou. Então, nesse sentido, foi muito frustrante –e até chocante. De tempos em tempos sai um filme que faz um grande sucesso e todo mundo rapidamente conclui “agora tudo será diferente”, mas não vemos isso nos números. “Jogos Vorazes” deveria ter mudado tudo, e não mudou nada. O ponteiro ainda não se mexeu.

thelma_e_louise_01(Metro-Goldwyn-Mayer Studios) (1)

Susan Sarandon e Geena Davis em cena de “Thelma & Louise”(1991)

Depois de fundar o instituto e começado a tratar do problema da representação das mulheres na mídia, você sentiu algum tipo de retaliação por estar colocando o dedo em uma ferida da indústria?
A razão principal pela qual eu quis começar a fazer pesquisas foi para poder ir falar direto com os criadores, não para envolver todo o público no problema. Como eu conhecia todo mundo na indústria, podia ir falar direto com eles e tentar mudar o que fazem de uma maneira muito pessoal e direta. E adotei uma abordagem muito amigável e encorajadora. A reação dominante, todas as vezes em que visitávamos algum lugar, era que eles ficassem chocados! Ficavam completamente chocados! Não tinham ideia de que estavam deixando de lado tantas personagens femininas. E realmente queriam melhorar, levaram muito a sério. Depois de todas as reuniões que fazíamos, alguém dizia: “Vocês acabaram de mudar meu projeto”; ou: “Voltem, por favor façam mais pesquisas, por favor nos ajudem”. Eu já fui à Disney dezenas de vezes, por exemplo, e eles foram muito compreensivos. Então, as reações sempre foram fantásticas e nunca sofremos nenhuma retaliação. Na verdade, sempre ficam horrorizados de não terem percebido antes.

as personagens femininas têm três vezes mais chances do que as masculinas de aparecer de forma sexualizada (fonte: Instituto Geena Davis)

Na nova pesquisa que vocês estão para divulgar, há dados sobre como as profissões femininas que são retratadas no cinema e na TV podem inspirar as garotas. Por exemplo, há dados mostrando o aumento da procura feminina por arco e flecha depois de “Jogos Vorazes”, por exemplo…
Sim, sim, é absolutamente verdade. No ano em que saiu “Jogos Vorazes” e a animação “Valente”, a porcentagem de meninas e mulheres fazendo arco e flecha disparou. Um estudo ais antigo trouxe dados sobre as muitas personagens de TV envolvidas com ciência forense, em séries como “CSI”, que inspiraram muitas garotas a ir para essa área. Agora, nos Estados Unidos, algo como 65% dos estudantes universitários nesse campo de estudo são mulheres. E a mesma coisa com o arco e flecha. Isso reflete o nosso lema, que é: “Se ela pode ver, ela pode ser”.

em entrevistas com 2.000 brasileiros, 75% concordoram que o cinema e a TV têm muita influência sobre como as pessoas pensam e agem (fonte: Instituto Geena Davis)

Apesar de os progressos serem lentos, em 21015 muitas mulheres resolveram se posicionar e falar sobre o sexismo que há em Hollywood, a falta de oportunidades, a desigualdade de salários. Você passou por esse tipo de problema na sua carreira?
Eu não sei se passei por situações de desigualdade de salários, que eu saiba. Mas certamente observei muito sexismo no set. Eu vi um diretor escolher figurantes para uma cena de multidão porque elas eram sexy e ele queria poder olhar para elas. Ouvi muitas coisas sexistas serem ditas. Teve uma ocasião em que, antes de assinar o contrato, fizemos um acordo para mudar algumas coisas no roteiro. Discutimos muito e eu disse “Vou fazer esse papel se vocês mudarem essa parte do roteiro”. Eles aceitaram. Quando chegou o momento de fazer as mudanças, voltaram atrás, e tenho certeza de que foi principalmente porque eu sou mulher, e eles acharam que não precisariam mudar. Tenho certeza de que se fosse um homem a estrela daquele filme, que eles não diriam “ah, desculpe, nós tentamos, mas não funcionou, então não vamos mudar”. Eu tive que realmente bater o pé e eles ficaram muito irritados porque insisti que seguissem o que tínhamos combinado. Isso foi muito sexista. Mas nada incrivelmente evidente aconteceu comigo.

Outro problema pelo qual as mulheres passam no cinema e na TV é a falta de oportunidades depois de uma certa idade. Você passou por isso?
Se eu passei por isso? Sim! Durante a minha carreira, minha média era de um filme por ano. Eu poderia ter feito mais, mas estava escolhendo apenas as coisas que amava. Mas, entre os 40 e os 50, fiz apenas um filme. E não foi porque não me ofereceram nada, me foram oferecidos alguns papéis, mas a qualidade e o tamanho eram dramaticamente diferentes do que eu estava acostumada. Nada que eu quisesse interpretar. Fiquei tão mal acostumada com papéis tão bons que não queria ser só a namorada do cara que faz todas as coisas legais, ou a mãe desse cara (risos). Eu queria continuar fazendo coisas legais.

Você está filmando o piloto de uma nova versão de “O Exorcista” para a TV. Será uma série mais igualitária, por causa da sua presença?
Eu não vejo problema com o filme original em termos de igualdade de gênero. Nesta versão, é uma história diferente: ainda é sobre alguém sendo possuído, mas eu interpreto a mãe de uma família com duas filhas, e também há dois padres. É bem equilibrado. Mas definitivamente, por eu estar no elenco, nós brincamos que temos que fazer tudo certo nessa série, porque vão prestar muita atenção (risos).

Parece que hoje em dia a TV dá mais oportunidade para as mulheres –atrizes, diretoras, roteiristas. Você acha que a TV está progredindo mais rápido que o cinema nesse sentido?
Eu sei que sim, por causa das nossas pesquisas. É fato que a TV está fazendo um trabalho melhor. Há mais personagens femininas, mais protagonistas de séries, elas têm papéis interessantes, melhores profissões. Não é igualitário nem perfeito, mas é muito melhor do que nos filmes. E está melhorando continuamente. O ponteiro está se mexendo na TV, enquanto no cinema o ponteiro não se move.

Você já considerou a possibilidade de se tornar roteirista ou diretora para contribuir para a criação de melhores papéis para as mulheres?
Nunca quis dirigir, não é uma coisa que me atraia. Mas eu queria muito poder ser roteirista, de verdade. Eu escreveria ótimos papéis (risos). Mas não sou uma escritora. Realmente gostaria de poder ser, mas não acho que vá acontecer.

Na série “Commander in Chief”, você interpretou a primeira mulher a se tornar presidente dos Estados Unidos, e agora vemos a possibilidade de isso se concretizar, com a candidatura de Hillary Clinton. Que projetos e causas você gostaria que uma mulher presidente abraçasse?
Hillary Clinton sempre foi uma forte defensora das mulheres, como Secretária de Estado ela colocou isso entre suas prioridades. Tenho muita confiança de que ela terá um grande impacto nas políticas para mulheres. Acho que será um grande passo adiante. Não só por mostrar que uma mulher pode ser presidente e finalmente quebrar essa barreira, mas uma mulher sempre terá uma percepção mais acurada da posição das mulheres no mundo, e acredito que ela fará disso uma prioridade.

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