cinema/literatura

A escolha de Tilda Swinton no papel do Ancião em “Doutor Estranho” vai muito além do debate de gênero

 

O blog publica hoje nosso primeiro guest post ever! Quem assume o teclado é minha amiga Paula Carvalho, jornalista, historiadora e mestranda em história (com uma pesquisa sobre o explorador inglês Richard Burton), além de autora de ótimos trocadilhos, que ela prometeu incluir em próximos posts

 

Por Paula Carvalho

Nesta semana saiu o primeiro trailer do filme “Doutor Estranho”, baseado no personagem da Marvel, que tem como o herói do título o britânico Benedict Cumberbatch (o ríspido, porém carismático Sherlock Holmes da série da BBC), e algumas mudanças em relação aos quadrinhos já chamaram a atenção.

Doutor Estranho é um cirurgião brilhante mas um tanto ególatra ,que perde o controle sobre suas mãos –e portanto de realizar cirurgias–, após sofrer um acidente. Com o objetivo de buscar uma cura, ele se dirige para o “Oriente” e acaba por encontrar o Ancião, o Mago Supremo da Terra, com quem aprende as artes místicas.

Originalmente, o Ancião era um homem idoso tibetano, um estereótipo clássico do “sábio oriental” que vai passar todo o conhecimento de uma cultura antiquíssima para o protagonista –invariavelmente um homem branco–, para ajudar no seu crescimento pessoal (lembram-se de “Karatê Kid”?). O fato de esse personagem ser agora interpretado por Tilda Swinton, uma mulher branca, à primeira vista, poderia ter um caráter duplamente subversivo: tanto implodindo uma imagem caricatural do oriental, quanto pela troca de gênero do papel do mentor do herói, que geralmente recai sobre uma figura masculina.

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Tilda Swinton e Benedict Cumberbatch em cena de “Doutor Estranho”, filme baseado no personagem dos quadrinhos da Marvel, com estreia em novembro

Não me levem a mal, eu adoro a Tilda Swinton, uma atriz interessantíssima que conseguiu tirar vantagem de seu visual não convencional tanto em suas parcerias com o cineasta cult Derek Jarman, quanto em filmes que exploram sua androginia, como “Orlando” (1992). Até em Hollywood ela conseguiu cavar seu espaço, por exemplo, como a Feiticeira Branca de “As Crônicas de Nárnia”, e o anjo Gabriel de “Constantine” (2005), papel de gênero indefinido.

Mas a escolha de Swinton para interpretar o Ancião traz outras questões que vão além do debate de gênero e caem no da falta de diversidade no cinema.

Se já é difícil para as mulheres conseguirem papéis interessantes nos filmes (este blog já postou vários textos sobre assunto), imagine para mulheres não brancas! A oferta é ainda mais limitada. Se fosse apenas uma questão de gênero, os produtores de “Doutor Estranho” poderiam ter escolhido uma atriz asiática para interpretar o Ancião, como Michelle Yeoh, atriz de origem malaia e grande estrela de filmes de artes marciais –e mais conhecida por aqui por “O Tigre e o Dragão”.

Esse processo é conhecido como “whitewashing”, ou “embranquecimento” de personagens, algo bastante comum no cinema hollywoodiano desde os seus primórdios. E se você acha que a escolha de Tilda Swinton para interpretar um sábio oriental é uma exceção, é só olhar para a polêmica em torno da versão cinematográfica do mangá “O Fantasma do Futuro” que tem Scarlett Johansson no papel principal da Major Motoko, personagem de origem japonesa.

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Scarlett Johansson em cena de “O Fantasma do Futuro”, baseado no mangá “Ghost in the Shell”

O próprio Benedict Cumberbatch não foge disso: o ator interpretou o vilão Khan no filme “Star Trek: Além da Escuridão” (2013), sendo que na série original o personagem foi interpretado pelo mexicano Ricardo Montalbán, um ator latino, o que gerou críticas de vários fãs, inclusive por parte do colega John Cho, que faz Sulu na versão atual da franquia.

O fato de uma mulher branca interpretar o guardião de um conhecimento originário do “Oriente” é ainda mais problemático. Com isso, o filme parece dizer que os próprios orientais já teriam passado o bastão da sua cultura para os brancos, que a teriam dominado de tal forma que seriam os seus herdeiros naturais. Uma posição claramente imperialista, pois sinaliza uma suposta superioridade branca ocidental em relação aos orientais.

Além disso, a própria representação da cultura oriental é passível de críticas, sendo possível chamá-la de orientalista, ao se valer de ideias genéricas e exóticas criadas pelos ocidentais ao pensar no Oriente. Assim, a riqueza cultural dessa parte do mundo perde as suas particularidades e complexidades para ser reduzida a uma mistura de misticismo e artes marciais, calcada em um conhecimento superficial da filosofia budista.

O próprio quadrinho do Doutor Estranho, surgido nos anos 1960, era um misto de culturas e influências orientais. Para o presidente da Marvel Studios e produtor do filme, Kevin Feige, o “misticismo falso” da HQ é uma das coisas que torna Doutor Estranho “interessante”.

Mas se no original o herói se dirigia ao Tibete, na versão para os cinemas parece que o protagonista passará longe da região para não mexer com as sensibilidades da China, um mercado em expansão para Hollywood. O governo chinês tem uma relação conturbada com o Tibete, intensificada desde de a invasão chinesa em 1950. Apesar disso, Feige comentou que o Doutor Estranho irá se dirigir para o “Oriente”, tanto que cenas do filme foram rodadas no Nepal e em Hong Kong. Afinal, a origem dessas artes místicas são simplesmente definidas como “orientais”, e não necessariamente “tibetanas”.

Inclusive, no trailer de “Doutor Estranho”, não há nenhum personagem de destaque que tenha traços orientais. Eles aparecem apenas como pessoas numa multidão, como parte de um cenário genérico do que é representado como o “Oriente”. Assim, o trailer parece afirmar a importância da cultura oriental (com sua filosofia, misticismo e artes marciais), e não dos próprios orientais. Esse tipo de representação parece nos mostrar que o Oriente está lá apenas para servir aos interesses e ao crescimento do mundo branco ocidental, e que isso é o que importa.

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Benedict Cumberbatch em cena de “Doutor Estranho”

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5 pensamentos sobre “A escolha de Tilda Swinton no papel do Ancião em “Doutor Estranho” vai muito além do debate de gênero

  1. Até ler esse texto eu tava achando demais a Tilda como ancião, mas acabei de mudar de ideia, ainda acho que ela vai se sair bem no filme, mas agora estou incomodado.
    Já sobre o “Fantasma do Futuro”, por ter um enredo que facilmente poderia ser passar em qualquer país de 1º mundo, não vejo problemas na escalação da Scarlett, eu admito que sou fã dela e que não curto muito as interpretações da maiorias dos orientais.

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    • pois é, Daniel, eu também achei muito legal num primeiro momento saber que a Tilda ia fazer o papel do Ancião. Mas depois fiquei pensando, li um pouco sobre o assunto, e acabou me incomodando também, ainda mais pelo tipo de papel que é o Ancião! Mesmo assim, ainda acho que ela deve fazer um bom trabalho no filme.

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    • Pois é, Daniel, eu também tinha ficado bem animada com a escolha da Tilda, mas depois fiquei pensando, li um pouco sobre o assunto, e acabei ficando incomodada, ainda mais pelo que o Ancião simboliza como personagem. Mesmo assim, acho que ela vai fazer um bom trabalho e continuo querendo ver o filme! E também sou fã da Scarlett, apesar da polêmica em torno da escalação dela para “Fantasma do Futuro” gerou entre os fãs do anime.

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  2. Eu vejo muito a questão do ‘tapa um santo, descobre o outro’ nos papeis do cinema atualmente.
    Seu post é mostra claramente essa carência. Basta falar ‘faltam mulheres em cena’, eles entram com uma mulher em um papel que poderia abranger tantas outras minorias, dar destaque a uma cena tão menor e ao mesmo tempo, mais ampla.

    Curtido por 1 pessoa

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