cinema

O Oscar não importa, mas importa sim

Encerrando um ano pautado pelo discurso de Patricia Arquette sobre desigualdade salarial no Oscar 2015, que deu início a um debate sobre sexismo em Hollywood, o Oscar 2016 deu um novo tom às discussões, e esse tom é racial.

Claro que o problema do sexismo não foi resolvido –de 43 prêmios distribuídos na noite de domingo, apenas 12 foram para mulheres–, mas desde o anúncio das indicações o Oscar colocou a exclusão racial na indústria em pauta. E a performance do comediante Chris Rock como apresentador foi a cereja no bolo.

Uma cereja ácida e de difícil digestão, diga-se de passagem. Rock obviamente lembrou a polêmica #OscarSoWhite (#OscarMuitoBranco), surgida pela ausência de atores negros indicados por dois anos consecutivos –sem contar que o único negro indicado este ano foi o cantor The Weeknd, pela música “Earned It”, de “Cinquenta Tons de Cinza”–, Rock não poupou ninguém, nem a Academia, nem mesmo os amigos “progressistas” brancos de Hollywood, que tiveram uma lição no melhor estilo “se você não é parte da solução, é parte do problema”.

Em um dos momentos mais afiados de seu monólogo de abertura, Rock respondeu a pergunta de ouro: Hollywood é racista?

“Mas a verdadeira questão que todo mundo quer saber é: Hollywood é racista? Você precisa ir com calma aí… É um tipo diferente de racismo. Lembro de uma noite em que eu estava num evento de angariação de fundos para a campanha do presidente Obama. Vários de vocês estavam lá. E tinha uns quatro negros lá: eu, Quincy Jones, Russell Simons, Questlove, sabe, os caras de sempre. E em certo momento você vai tirar uma foto com o presidente. E eu disse, ‘Sr. Presidente, você vê todos esses roteiristas, esses produtores, atores… eles não contratam pessoas negras. E eles são as pessoas brancas mais legais do mundo. Eles são progressistas!'”

Ouch!

O monólogo também lembrou a violência policial contra os negros (“Este ano as coisas vão ser um pouco diferentes no Oscar. Na parte do In Memoriam, vão mostrar apenas pessoas negras que foram baleadas por policiais a caminho do cinema. Sim, eu disse isso!”) e apontou o quanto a Academia está descolada da realidade do público com uma esquete filmada em frente a um cinema na periferia de Los Angeles, onde as pessoas não conheciam nenhum dos indicados ao Oscar e nem acreditavam que “Ponte dos Espiões”, de Spielberg, era o nome de um filme real (veja abaixo, em inglês).

Mas tudo isso não importa, certo? Porque o Oscar é apenas a “festa da firma” dos milionários de Hollywood, temos coisas mais importantes para nos preocupar e, de qualquer maneira, não é culpa da Academia que não houve negros indicados, é um problema da indústria do cinema, não deles. Certo?

Não exatamente, mas vamos por partes.

Toda vez que eu escuto alguém dizer “A Academia não é racista, é Hollywood que tem um problema com os negros”, imediatamente me vem na cabeça aquele meme “hum, fale mais sobre isso…”. Porque Hollywood realmente não contrata negros suficientes, nem na frente das câmeras, nem atrás.

Mas a Academia tem o mesmo problema: até pouco tempo atrás, os novos membros eram convidados a partir da indicação de quem já era sócio, e esses sócios são esmagadoramente brancos, homens e com idade acima dos 60 anos. E vamos combinar que identificação é quase tudo na vida. Na maior parte das situações, as pessoas querem se cercar de outras pessoas parecidas com elas. Então, quais as chances, por exemplo, de um homem branco, heterossexual, de 62 anos, recrutar para a Academia uma mulher jovem, negra e lésbica?

Você entendeu o ponto, né? É um mundo visto por uma ótica muito específica e nada diversa. Tanto que:

  • Os papéis mais interpretados pelas atrizes vencedoras do Oscar foram: esposa (16%), atriz/cantora/apresentadora (14%), viúva (11%), operária (11%), socialite/herdeira (9%), prostituta (7%)
  • Para comparar, os personagens masculinos mais premiados são, nessa ordem: criminoso, militar, ator/cantor/apresentador, artista ou escritor, realeza/nobre
  • Desde os anos 1940 uma atriz não recebe o grande prêmio por um papel de empreendedora ou dona de negócio, mas quatro homens o receberam apenas nos últimos 20 anos
  • Das 10 atrizes negras indicadas a melhor atriz, 9 interpretaram mulheres desabrigadas ou prestes a perder o lar, metade delas são mães pobres e nenhuma das personagens tinha diploma universitário. Sete delas têm um companheiro ou pai ausente ou preso, seis sofrem violência e cinco são estupradas na história do filme.

(Levamento do Think Olga)

O problema é tão óbvio que a própria presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, que é negra, conseguiu aprovar medidas para mudar as formas de recrutamento e identificar talentos entre minorias e mulheres para trazê-los para os quadros da instituição. Clap, clap, clap.

Mas não é só isso: uma organização que se pretende como a vanguarda da indústria do cinema não pode sentar a bunda na cadeira e esperar que Hollywood resolva seu problema de falta de diversidade, para que depois isso se reflita entre os indicados ao Oscar. Tem que dar exemplo! E Isaacs também pensa assim.

Ah, mas a gente vai se importar com isso enquanto há tanta desigualdade social no mundo, pessoas negras sendo corriqueiramente mortas pela polícia, sem acesso a educação e a saúde etc. etc.? Sim, vamos, porque esses assuntos são todos muito sérios, mas a questão simbólica também é.

Queira ou não, o Oscar é a vitrine de uma das indústrias mais poderosas do mundo, e uma indústria que trabalha basicamente com o imaginário das pessoas. O cinema hollywoodiano é nada mais do que uma gigantesca máquina de propaganda, que cria “exemplos” de como a vida deve ser.

Vou repetir aqui o que escrevi em um texto sobre “Star Wars”: o cinema não só reflete e valida o espírito da nossa época, mas também cria representações que ajudam as pessoas a construir suas identidades. Muito do que a gente acredita sobre “como a vida deve ser vivida” vem de filmes, novelas, séries, músicas, desenhos animados, quadrinhos etc. que consumimos ao longo da vida e que vão moldando nossa visão de mundo e nossas expectativas.

E hoje ainda existe muito pouco espaço para a representação de pessoas que não são homens brancos e heterossexuais, apesar de existir bilhões de pessoas assim no mundo. Qual a mensagem que isso passa? Que exemplos inspiradores uma criança negra, por exemplo, tira do cinema que ela vê hoje? Que modelos entre os premiados ao Oscar sobram pra ela?

Ela “aprende” que gente como ela tem pouco espaço no mundo, e um espaço tão marginal quanto são estereotipados a maioria dos papéis dados às “minorias”, que nem sempre são numericamente minorias, incluindo aí as mulheres (lembra do levamento que eu coloquei ali em cima?)

Não sei você, mas pra mim isso parece bem errado. O cinema, essa “indústria da magia”, como Hollywood gosta de vender, deveria estar vendendo sonhos muito mais diversos, em que todo o tipo de pessoa pudesse se ver representada, em todo o tipo de situação e papel social (não só como marginalizados). E o Oscar, com as mudanças anunciadas e a apresentação de Chris Rock, ao menos reconheceu que tem um problema sério para enfrentar e um exemplo importante para dar.

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