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Crítica: Girl power de Anitta perdeu o bonde do neo-feminismo das divas pop

anitta

[Crítica minha originalmente publicada no UOL]

Não sou particularmente fã da Anitta, mas adoro uma diva pop. Por isso aceitei de “coração aberto” quando meu editor me colou um desafio: fazer uma crítica feminista de “Bang!”, o disco que a cantora “poderosa” acabou de lançar.

A coisa se revelou um pouco mais complicada quando percebi que, mesmo no ativismo diluído do feminismo pop, Anitta come poeira e fica muito pra trás de outras divas nacionais e internacionais. “Bang!” está mais para um girl power datado, anos 1990, do que para o neo-feminismo pop –muito mais Spice Girls do que Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj ou Katy Perry.


Pensando só na estética e na sonoridade, Anitta conseguiu sim se aproximar do que fazem as divas do pop mundial –o disco é dançante, animado, com uma batida envolvente. Mas quando se presta mais atenção nas letras é que Anitta perde o bonde.

Sua mulher poderosa é apenas aquela que conseguiu virar o jogo amoroso –num estilo “baba baby”– e agora está no comando, tomando a iniciativa ou fazendo o boy pastar. Ela também banca seus desejos sexuais, mas de modo bem mais sutil do que já haviam feito Valesca (quando ainda era Popozuda) e outras funkeiras –que chamaram as coisas pelos nomes e deixaram claro que o que é delas, elas dão pra quem quiserem.

Como as composições do disco são quase todas da própria Anitta, é seguro dizer que as letras transmitem as opiniões, desejos e preocupações da cantora de 22 anos, e ela parece estar muito preocupada com os homens –de 14 faixas inéditas, pelo menos 11 falam de relações amorosas, a maior parte naquela linha de “agora quem não quer sou eu”.

Também de nada adiantou Anitta levar um pito da Pitty em rede nacional –ela continua achando que “a mulher tem que se respeitar”, mesmo ouvindo da outra o problema que é essa diferença entre o que é uma “mulher de respeito” e o que é um “homem de respeito”.

A mensagem aparece de forma sutil nas letras, mas está lá: “Eu não sou tão fácil assim”, ela canta em “Deixa Ele Sofrer”; “Eu me dou valor”, repete em “Atenção”; e “Gosto Assim” é quase uma ode contra as mulheres que “só querem dinheiro”.

Para quem diz que já canta “bastante sobre o poder da mulher”, Anitta também bate muito na tecla do amor de conto de fadas, da mulher à espera de um cara perfeito, que vai topar um relacionamento sério. “Cravo e Canela” é basicamente sobre isso (“Procurando alguém só pra cuidar do seu jardim, regando sua vida todo dia, até o fim”), e mesmo “Deixa Ele Sofrer” e “Essa Mina É Louca” falam desse relacionamento idealizado.

Minha vontade é dizer pra ela: “Amiga, o poder da mulher vai muito além de achar o príncipe encantado e se livrar dos canalhas. É muito mais do que subir no salto, malhar pra ficar gostosa, passar um make bafo e ficar com a autoestima em alta. O verdadeiro girl power é se libertar de todas essas ideias preconcebidas pra enquadrar a gente e descobrir de verdade o que nos faz feliz, de preferência numa sociedade sem assédio na rua, diferença salarial entre os gêneros e pressões por uma aparência perfeita”.

E mais: “Gata, esquece o boy e vai curtir a vida, a carreira em ascensão, o mundo –com as amigas ou sozinha. Se não, seus discos vão parecer sempre um eterno refrão de ‘Single Ladies’ –’If you liked it, then you should’ve put a ring on it’ (Se você gostava, então devia ter me dado uma aliança)–, quando a gente já está mais pra ‘Who run the world? Girls!’ (Quem manda no mundo? As garotas!)”.

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