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Peitos e apalpadas no Rock in Rio (ou: o corpo da mulher não é público, p***a!)

Garota faz topless durante show do Queens of the Stone Age no Rock in Rio e é apalpada por marmanjos idiotas (Foto: Reprodução/Multishow)

Garota faz topless durante show do Queens of the Stone Age no Rock in Rio e é apalpada por marmanjos idiotas (Foto: Reprodução/Multishow)

O Rock in Rio acabou, os artistas já foram embora do Brasil, o público já teve tempo de curar a ressaca e pra muita gente o festival já é assunto encerrado.

Mas pra quem, como eu, acompanhou o evento pela internet e pela transmissão na TV, ficou um gosto amargo na boca.

Não estou falando do line-up escolhido, nem dos preços dos ingresso, mas sim das imagens que circularam de moças fazendo topless e sendo apalpadas por marmanjos.

Quase todos os sites que cobriam o Rock in Rio mostraram essas imagens, e todo mundo fez isso de uma forma completamente leviana. Uma imagem assim jamais deveria caber no clima festivo de uma cobertura como essa. Jamais.

Foi no show do Queens of the Stone Age. Quando vi as imagens, já no dia seguinte, até engasguei de tanta indignação. Literalmente fiquei vermelha de raiva. Pra mim, aquilo era de uma violência tão grande que eu não conseguia entender como alguém podia publicar aquelas imagens como se não fosse nada.

Como é que ninguém achou aquilo absurdo?

Como é que ninguém percebeu que estava “noticiando” um crime?

Se você ainda não entendeu por que tava tudo errado, vamos lá, eu explico. Até desenho, se for necessário.

Olha só, quinta-feira (24) foi o dia mais quente no Rio no ano. Chegou a fazer mais de  41 graus. Imagina como estava a temperatura no meio da multidão! Daí você tá lá, curtindo o show da sua banda preferida, e os caras em volta estão todos tirando a camisa, com razão. O clima é de festa, tá calor, por que não fazer o mesmo?

Não sou vidente pra saber o que exatamente as garotas pensaram, mas imagino que foi algo parecido com esse meu raciocínio. O que eu tenho certeza absoluta que elas NÃO pensaram foi “vou fazer um topless aqui pra vários caras pegarem nos meus peitos”. As imagens da transmissão mostravam inclusive uma garota tirando a mão do cara que insistia em apalpá-la. VÁRIAS VEZES.

Se essa imagem não te parece extremamente violenta, então você tem sérios problemas. E não, ela não estava pedindo pra ser apalpada, nem curtindo. As imagens mostram ela tentando diversas vezes empurrar as mãos dos idiotas que insistiam em pegar em seus peitos (Foto: Reprodução/Multishow)

Se essa imagem não te parece extremamente violenta, então você tem sérios problemas. E não, ela não estava pedindo pra ser apalpada, nem curtindo. As imagens mostram ela tentando diversas vezes empurrar as mãos dos idiotas que insistiam em pegar em seus peitos (Foto: Reprodução/Multishow)

O que veículo nenhum entendeu, e os caras que estavam apalpando as moças menos ainda, é que o nome disso é estupro. Sim, isso mesmo, na nossa lei, qualquer aproximação sexual não consentida configura crime de estupro, não precisa ter penetração (ou ao menos deveria ser, já que nossa polícia e nossa justiça não são muito eficientes quando o assunto é violência contra mulheres).

E mesmo que não fosse lei, quando é que vão entender que o corpo da mulher não é público, porra, e que a forma como a gente se veste ou desveste não é convite pra nada?

Infelizmente, essa sociedade machista pra caralho ainda acha que pode ditar as regras sobre o corpo e o comportamento das mulheres. E a mídia embarca sempre nesse discurso. Isso me deixa muito puta.

Até quem escreveu que apalpar os seios das moças no Rock in Rio era uma atitude boçal acabou errando o alvo. Meu colega Borbs, do Judão, por exemplo, deixou de acertar por muito, muito, pouco.

Ele basicamente mostrou, com toda a razão, que homens que se acham no direito de passar a mão em mulheres sem o consentimento delas são grandes babacas. Até aí, maravilha.

Onde eu começo a discordar é quando ele coloca que peitos são as coisas mais legais do mundo, e que da próxima vez, as garotas que foram apalpadas vão pensar duas vezes e ninguém vai ver peitinhos. Ou seja, é um raciocínio que pode levar à conclusão de que “se a gente respeitar as minas, a gente só tem a ganhar porque vamos poder ver mais peitos”. O título do texto também induz a essa ideia: “É por isso que não podemos ter coisas legais”.

Conhecendo um pouquinho o autor do texto, eu não tenho dúvidas de que as intenções dele foram as melhores possíveis. Também concordo que o argumento pode funcionar muito bem com o público que acompanha o Judão.

Mas está errado. Está errado por que tem que respeitar as mulheres e ponto. Não deveria precisar de nenhuma razão pra isso. Não é apoiar a liberdade (sexual ou não) das mulheres por que isso pode ser bom para os homens.

Garota faz topless durante show do Queens of the Stone Age no Rock in Rio e é apalpada por marmanjos idiotas (Foto: Reprodução/Multishow)

Garota faz topless durante show do Queens of the Stone Age no Rock in Rio e é apalpada por marmanjos idiotas (Foto: Reprodução/Multishow)

A questão de “peitos serem as coisas mais legais do mundo” também me incomoda muito. Por que a sexualização e objetificação do corpo da mulher (e de partes desmembradas dele, como os peitos) é uma coisa construída pela nossa sociedade –sociedade baseada nos valores dos homens brancos e heterossexuais, vale lembrar.

Você já se perguntou por que o peito das mulheres é um objeto sexual e o dos homens não? Não faz sentido, né?

E é assim com todo o resto. Enquanto nos homens as únicas partes do corpo imediatamente ligadas ao sexo parecem ser o pau e a bunda, nas mulheres, todas as partes são sexualizadas –e, por isso viram um “perigo”, uma “tentação”. É por isso que a gente fazer topless “é errado”, enquanto tudo bem os caras tirarem a camisa.

É claro que em sociedades um pouco mais igualitárias e avançadas, topless não é nenhum tabu. Nas praias da Europa, por exemplo, você pode tirar o top do biquíni sem nenhum marmanjo vir babar em cima. É a coisa mais normal do mundo, e deveria ser assim sempre.

Porque nenhum homem nunca vai entender o quanto é traumático quando a gente entra na puberdade e a mensagem que todo mundo começa a passar pra gente é: seu corpo vai te colocar em perigo, cuidado, se esconda, porque agora ele é uma tentação para os homens, você tem que se proteger da agressividade sexual deles. É uma coisa tão bizarra que uma boa parte das mulheres nunca mais se reconcilia com seus corpos.

Enquanto isso, ninguém faz nada pra enfiar na cabeças dos meninos que o corpo das mulheres não é público, que eles não têm o direito de tocar nenhuma parte sem consentimento –nem peitos, nem bunda, nem cabelo, nem nada.

Pelo contrário: ensinam que “homem de verdade” tem que ser agressivo mesmo.

Vai ser muito difícil mudar essa mentalidade enquanto tudo na nossa cultura objetifica os nossos corpos e sexualiza partes deles até pra vender qualquer produto. Com esse tipo de mensagem circulando por aí, vai ser difícil os homens entenderem que seios e outras partes do nosso corpo não são objetos que servem para o prazer deles.

Mas a gente tem que continuar insistindo até que todas nós possamos sair na rua sem camisa em um dia de calor, sem virar alvo de violência sexual. Tá longe, mas somos teimosas e não vamos desistir.

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4 pensamentos sobre “Peitos e apalpadas no Rock in Rio (ou: o corpo da mulher não é público, p***a!)

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