cinema/literatura

“Que Horas Ela Volta?” e uma história que só poderia ser de mulheres

Vamos começar pelas coisas importantes: se ainda não viram “Que Horas Ela Volta?”, parem tudo o que estiverem fazendo, larguem esse post por aqui e vão logo comprar um ingresso. Eu garanto que vocês não vão se arrepender, vão se divertir, se emocionar e ainda vão sair pensando em um monte de questões importantes. Só não garanto “satisfação ou seu dinheiro de volta” porque minha conta bancária não permite, o que prova que não ganhei um centavo para escrever essas linhas. 😛

Agora que já tiramos isso do caminho, preciso explicar por que este é um filme essencial, o melhor longa brasileiro em muito tempo (na minha opinião), o tipo de produção que eu gostaria de ver mais por aqui.

No filme da diretora Anna Muylaert, Regina Casé é Val, uma mulher nordestina que veio para São Paulo trabalhar na casa de uma família de classe média alta, deixando a filha Jéssica (Camila Márdila) para trás justamente para poder lhe dar uma vida melhor. Mais de dez anos passam, Val continua como empregada na casa, e Jéssica anuncia que vem a São Paulo para prestar vestibular. O problema: Val mora no trabalho, e a chegada da filha começa a perturbar a até então plácida relação entre a empregada e os patrões.

Pela sinopse, vocês já percebem que é um filme de mulher, sobre mulheres, o que em si já vale a nossa atenção, já que esse ponto de vista ainda faz falta no cinema nacional. E é um ótimo filme, caso eu ainda não tenha deixado isso claro o bastante.

Mas mais que tudo, o que me chamou a atenção é que “Que Horas Ela Volta?” é um filme que só poderia ter sido feito por uma mulher. “Por quê?”, vocês vão perguntar, se hoje já não faz muito sentido falar em filme feminino e filme masculino, literatura feminina e literatura masculina, e por aí vai.

A explicação até que é simples: por mais que as discussões sobre gênero já tenham avançado muito e borrado bastante a linha divisória entre o que significa masculino e feminino, o espaço doméstico foi por muito tempo, e continua sendo em muitos casos, um espaço povoado pelas mulheres.

Enquanto o espaço público pertence aos homens desde sempre, só recentemente nos libertamos do “lar”, e ainda é questionável se nos libertamos totalmente. Também não dá pra esquecer que, para as mulheres de classe média poderem deixar o espaço doméstico, mulheres de outras classes passaram a ocupá-lo em casas que não são as suas –milhões de Vals, que cuidam da casa e dos filhos de outras mulheres para que elas trabalhem fora.

E é muito simbólico que só muito recentemente essas mulheres tenham conquistado direitos trabalhistas já garantidos há tempos a outras profissões –a casa, a vida doméstica, é um espaço tão desvalorizado em uma cultura centrada no homem que o trabalho doméstico não era nem considerado trabalho.

Mas pensando em histórias, e em formas de contá-las, isso não é de todo ruim. Contar histórias sobre esse espaço que os homens consideram desimportante continua sendo privilégio nosso, e temos todo o direito de chamar atenção para isso.

Futebol e guerras importam mais do que o que se passa na cozinha ou na lavanderia de uma casa? Claro que não. Mas os homens não conseguiriam enxergar nesses cômodos todos os pequenos detalhes e sutilezas que dão corpo a essas histórias.

Virginia Woolf, lá na década de 1920, escreveu em “Um Teto Todo Seu”: “Basta que entremos em qualquer cômodo de qualquer rua para que essa força extremamente complexa da feminilidade nos salte aos olhos por inteiro. (…) Pois as mulheres têm permanecido dentro de casa por todos esses milhões de anos, de modo que a essa altura as próprias paredes estão impregnadas por sua força criadora”.

O filme da Anna Muylaert prova que Virginia tinha toda a razão. Duvido muito que um cineasta homem tivesse conseguido mostrar tanta história com coisas tão pequenas: Val dá de presente à patroa um jogo de café que ela sutilmente demonstra que não vai usar, Jéssica chega e não entende por que não pode ficar no quarto de visitas, Jéssica come o sorvete do filho dos patrões… Nessas coisas mínimas, o “você é quase da família” se transforma em “mantenha a sua filha da cozinha pra lá”. Assim, em acontecimentos contidos, sem grandes dramas e tragédias.

A linguagem da mulher é diferente da linguagem do homem. Nossa experiência é diferente da deles. Querer que fosse igual seria perder grandes potenciais. “Que Horas Ela Volta?” está aí como mais uma prova disso.

Eu ainda poderia dizer que o filme mexe com questões sociais que doem fundo na alma dos brasileiros, com um tipo de exploração disfarçada de afeto e familiaridade (mas que também tem afeto e familiaridade), que as diferenças entre Val e a filha Jéssica personificam as novas oportunidades às quais uma parcela da população passou a ter acesso nos últimos anos.

Eu poderia dizer tudo isso. Mas não importa. O que importa é que “Que Horas Ela Volta?” coloca Val para contar sua própria história.

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