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Gisele Bündchen, Tom Brady e o mito da babá destruidora de lares

Gisele Bündchen com o marido Tom Brady (Crédito: Reprodução/Instagram/gisele)

Gisele Bündchen com o marido Tom Brady (Crédito: Reprodução/Instagram/gisele)

A “suposta” separação de Gisele Bündchen e Tom Brady já passou do prazo que as coisas “supostas” têm pra se concretizar, mas mesmo assim ainda só se fala da “suposta” pivô da separação: a babá “destruidora de lares”.

É assim que Christine Ouzounian tem sido retratada por Deus e o mundo: um monstro sem alma, uma devoradora de homens que, não contente em separar Ben Affleck e Jeniffer Garner, também quis roubar Tom de Gisele.

Calma lá, gente! Menos, bem menos.

Pra efeito retórico, vamos ignorar o quanto é doentia essa obsessão com a intimidade alheia e supor que as “supostas” “traições” realmente tenham ocorrido.

Por acaso era a Christine quem estava casada com a Gisele ou com a Jennifer?

E por acaso seria possível um contrato de babá ter a cláusula “é dever da contratada não se relacionar romântica ou sexualmente com o contratante”?

Claro que não, né.

É de fuder quando esse tipo de coisa acontece e “a outra” é demonizada enquanto o marido que pulou a cerca é tratado como um coitadinho que não tinha como segurar seu instinto sexual e resistir a tanta seduçãozzzzzzzz…

Aconteceu a mesma coisa no caso Cauã-Grazi-Ísis, e é por essa repetição cretina que a gente tenta então explicar o que está errado nessa história.

Em primeiro lugar, vale lembrar que relacionamentos não precisam seguir um modelo fixo e podem ter diferentes pactos de monogamia, ou não. Tem gente que tem relacionamento aberto, em que não é problema nenhum ficar com outras pessoas; tem gente que se relaciona a três, a quatro, a cinco…; tem gente que acha que tudo bem rolarem “escorregadas” eventuais dos dois lados, porque a relação do casal é maior do que isso; e tem gente que combina que a relação tem que ser ali, só entre as duas pessoas. O importante é que seja algo discutido e combinado entre o casal, não imposto de fora.

A babá Christine Ouzounian, a "vilã malvada e desalmada que está separando os casais de Hollywood" (Crédito: Reprodução/New York Post)

A babá Christine Ouzounian, a “vilã malvada e desalmada que está separando os casais de Hollywood” (Crédito: Reprodução/New York Post)

A gente não sabe qual era o pacto entre Jen e Ben e entre Gisele e Tom, mas vamos supor que eles tivessem casamentos totalmente monogâmicos. Gente, quem é então que tinha um pacto? Quem é que descumpriu o combinado? Os maridos, oras! Não a suposta “amante”.

Os maridos é que foram uns babacas que fizeram um pacto e depois não cumpriram. E mesmo que a moça tenha feito um esforço enorme pra “seduzí-los”, é deles que a gente deveria esperar coerência.

Não é possível que a maior parte das pessoas ainda veja como algo normal essa coisa de “os homens não conseguem se segurar, é assim mesmo”.

Quem disse que “é assim mesmo”?

E por acaso “é da natureza das mulheres” conseguir se segurar, então?

Por mais que muita gente tente encontrar explicações biológicas pra isso, até hoje não existe nenhuma prova de que esse tipo de comportamento seja da “natureza”, e não algo construído desde o berço pela cultura, a sociedade e as expectativas que elas criam sobre a essência do que é ser homem e do que é ser mulher.

[Obs.: quem foi que disse mesmo que todo mundo tem que ser “fiel” o tempo todo e que não dá pra se sentir atraída por outra pessoa mesmo estando em uma relação bacana? Menos hipocrisia, pessoal…]

“Ué, mas então tá certo pegar o marido da coleguinha?”, vocês poderiam me perguntar. É claro que ficar com alguém que tem um compromisso monogâmico com outra pessoa não é das coisas mais legais, mas quem tinha algum pacto a ser respeitado com suas mulheres eram os maridos, não a moça. Simples assim.

Tem gente que vai dizer: “ah, mas as mulheres são assim mesmo, competitivas entre si. Roubar o marido da outra é como se fosse um grande prêmio”.

Bom, você que acredita nessa bobagem, já parou pra pensar que há séculos a sociedade mede o valor da mulher por coisas como a beleza (que serve pra fisgar os homens) e a qualidade do homem que ela consegue fisgar? A competição entre mulheres existe por causa de expectativas como essa. Se eu só tenho valor se tiver um “bom homem” ao meu lado, então todas as outras mulheres são potenciais concorrentes que eu preciso superar. E a história da babá x Gisele tem tudo a ver com isso.

Mas isso está errado, muito errado.

Não vou psicoanalisar a babá Christine Ouzounian, porque a gente nunca pode esquecer que as pessoas são complexas, as explicações para por que a gente age de determinada forma são muitas e não dá pra generalizar nem pra simplificar. Mas com certeza ela não está imune a essa “tradição” de colocar as mulheres umas contra as outras na disputa pelo prêmio que é o “homem perfeito”.

Então:

1. Não existe “homem perfeito”, assim como não existe mulher perfeita e já passou da hora de acabar com o mito do Príncipe Encantado que vai chegar para transformar a vida da mulher

2. O valor das mulheres vai muito, mas muito, além do homem com quem ela se relaciona. Está nas qualidades, capacidades e personalidade de cada uma

3. Ninguém tem obrigação de ter um homem ao lado (ou uma mulher, ou um parceiro de qualquer gênero). Ficar sozinha não é ruim, é não estar disposta a se relacionar com alguém que não vai realmente acrescentar algo pra você, ou simplesmente estar focada em outras coisas, outros projetos. Ou simplesmente querer estar sozinha. Por que é que a gente ainda acha bonito os homens que são “solteirões convictos” e acha triste uma “solteirona”? Já deu, né?

4. Se a gente tirar os homens do meio da relação entre as mulheres e pararmos de achar que as mulheres são competitivas entre si “por natureza”, todas nós ganharemos muitas aliadas pra vida. Isso chama sororidade. Que tal?

E, pra terminar, achar que é o fim do mundo pra Gisele o fato de o marido ter pulado a cerca é um grande desrespeito com ela. Sério mesmo que vocês acham que a vida dela vai acabar por perder um homem? Ela –e toda mulher– são muito mais do que isso. Tragédia seria se ela nunca mais pudesse fazer algo que ama. Não é o caso.

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