televisão

“Mad Men” finalmente chega ao feminismo –e mostra porque ainda precisamos dele

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“Mad Men” finalmente chegou lá. Depois de sete temporadas, a série atual com os melhores papéis femininos e o melhor retrato do machismo tocou abertamente na questão do feminismo.

O tema do episódio desta semana, “Lost Horizon”, o antepenúltimo ever da série (snif), foi o lugar dos personagens no mundo, e especialmente no novo mundo mega-corporativo da McCann Erickson. Alguns estão felizes (Pete, Harry), outros aliviados (Ted), e outros simplesmente não estão se ajustando muito bem à mudança (Joan, Peggy, Don, Roger). Mas o que está em questão é, em especial, o lugar das mulheres nesse novo mundo.

As pistas aparecem cedo: Shirley, a secretária negra de Roger, diz que aceitou outro emprego porque a publicidade “não é um lugar confortável para todo mundo”. Peggy ainda não tem um novo escritório porque acharam que ela era secretária. As redatoras da McCann vão recepcionar Joan, contentes de lidarem com uma executiva mulher e ansiosas por integrá-la em seu happy hour, um grupo informal de mulheres, “nada de liberação feminina, apenas reclamações”. E Joan, bem, Joan é quem leva a pior.

É desconcertante ver a escalada de sexismo contra ela: primeiro, de um colega que não aceita receber ordens de uma mulher; depois, de um executivo que aproveita o pedido de ajuda de Joan para fazer investidas sexuais; por fim, do chefão da McCann, que simplesmente deixa claro que não vai dar apoio nenhum à autoridade dela.

É aí que a coisa fica interessante e que o feminismo entra em cena de forma escancarada: Joan ameaça incluir na disputa a Equal Employment Opportunity Comission (Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego), a União Americana pelas Liberdades Civis, Betty Friedan (uma das líderes da segunda onda do feminismo) e as mulheres da Greve das Mulheres pela Igualdade (que reuniu cerca de 20 mil mulheres na 5a. Avenida, em Nova York, em agosto de 1970, ano em que a sétima temporada de “Mad Men” se passa). O chefe da McCann não cede, mas Joan também não, e sai com a cabeça erguida. Pena que esta não é uma série em que os personagens se dão bem, e ela acaba tendo que deixar a agência.

Não é a primeira vez que uma personagem de “Mad Men” passa por uma situação revoltante de machismo, mas talvez seja a mais enfática e com certeza é a primeira em que se fala abertamente da luta pela igualdade das mulheres. Matt Weiner, criador do programa, já se declarou feminista inúmeras vezes e contou que cresceu vendo a participação de sua mãe em grupos de libertação das mulheres, e há tempos esperávamos que isso aparecesse de forma mais assertiva.

Ainda assim, ver uma personagem tão querida ser vencida pelo machismo dói, mas “Mad Men” é uma série que ensina sobre feminismo pela dor, não pelo amor. É uma série feminista não porque mostra apenas mulheres empoderadas. Aqui, estamos no terreno de personagens falhos e feridos, e não seria diferente com as mulheres. “Mad Men” é uma série feminista porque mostra o pior do machismo e da misoginia, da forma mais desconcertante possível.

Os exemplos não são poucos: temos marido controlando a terapia da mulher, mulher sendo comparada a “um cachorro tocando piano” quando faz um bom trabalho, insinuações de que uma mulher promovida deve ter dormido com alguém (e, às vezes, essa é de fato a única possibilidade), noivo estuprando a noiva… A lista de choques é longa.

Isso está presente mesmo na trajetória empoderante de Joan e Peggy. Elas conseguiram avançar, não só profissionalmente –de chefe das secretárias a sócia da empresa e de secretária a chefe dos copywriters–, mas também adquiriram autonomia e autoconfiança para seguirem os caminhos que escolheram, independente das convenções e esticando os limites que a sociedade lhes colocava.

Não sem um alto custo, é claro. No caso de Joan, apesar de sua competência e importância para a empresa, foi preciso literalmente se prostituir e dormir com um potencial cliente para se tornar sócia e conquistar a independência financeira de que tanto precisava. No caso de Peggy, foi preciso endurecer e sacrificar a vida pessoal –algo que sabemos que deixou marcas profundas, como ela mostrou na emocionante conversa com Stan no episódio anterior, sobre o filho que ela abandonou e como aos homens é permitido seguir com a vida depois de um erro.

Mas o importante aqui é que os últimos episódios mostram que o que acontece na série, entre os anos 1960 e 1970, não está muito distante do mundo do trabalho de hoje, apesar de ninguém mais dizer abertamente que é vergonhoso para um homem receber ordens de uma mulher. As coisas são mais sutis, mas estão aí alguns exemplos:

– ainda espera-se que as mulheres ajam como os homens no ambiente de trabalho (lembram de Don dizendo a Peggy que ela tem que pedir um aumento como um homem?)

– e quando elas agem como os homens, de forma mais assertiva, são chamadas de mandonas ou coisa pior (a sina da Peggy quando se torna chefe dos redatores)

– homens interrompem as falas das mulheres o tempo todo e a mesma ideia ganha mais credibilidade quando é colocada por um homem

– muitas decisões ainda são tomadas em ambientes em que os homens, chefes e subordinados, socializam sem a presença das mulheres (não necessariamente em clubes de strip, como na segunda temporada, em que Peggy tenta entrar no clube dos “garotos”, mas mesmo assim…)

– e muitas vezes os homens são promovidos em detrimento de mulheres tão competentes quanto eles porque os chefes, em sua maioria homens, se identificam mais, sentem uma “brodagem”.

É, as Peggys e Joans de hoje continuam precisando do feminismo e ainda têm muitas batalhas a enfrentar, mas a Peggy de 1970 parece pronta para ir à luta. De uma geração ligeiramente mais jovem que a de Joan, ela não aceita as limitações que tentam lhe colocar, e algo bom pode sair mesmo de uma bizarrice como ser deixada para trás na mudança da SC&P para a McCann.

Sozinha no antigo escritório com Roger, ela ganha a chance de receber um conselho valioso. Ele oferece a ela uma antiga gravura japonesa que pertenceu a Burt Cooper, que retrata um polvo fazendo sexo oral em uma mulher, mas Peggy recusa, dizendo que precisa fazer os homens se sentirem à vontade ao seu redor. “Quem te disse isso?”, retruca Roger.

Bem, o fim do episódio mostra que ela pegou a dica, e dá alguma esperança para as mulheres da série:

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