literatura

Por que a polêmica da capa de “Batgirl” interessa não só aos nerds

Eu não sou uma leitora frequente de quadrinhos de heróis e, por esse motivo, hesitei muito em entrar na polêmica da capa alternativa da “Batgirl” que foi cancelada pela DC Comics depois que legiões de fãs foram para as redes sociais reclamar. Resolvi me aprofundar um pouco e acabei concluindo que essa controvérsia tem algo a dizer sobre a indústria cultural e o mundo nerd como um todo, e por isso merecia não ficar restrita apenas ao universo dos fãs de HQs.

O embate entre defensores e detratores da capa foi a maior polêmica do mundo nerd na semana, mas se você não está muito familiarizada com o assunto, aqui vai um pequeno resumo: para comemorar os 75 anos do Coringa, a DC encomendou artes com o personagens a diversos desenhistas, para serem publicadas em junho, como capas alternativas de várias HQs da companhia. A capa de “Batgirl” foi desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque e é esta aqui embaixo:

Capa variante da HQ "Batgirl" de junho de 2015, desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque, que foi cancelada pela DC Comics

Capa variante da HQ “Batgirl” de junho de 2015, desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque, que foi cancelada pela DC Comics

Como o próprio Rafael contou, ela faz referência à história de “A Piada Mortal”, escrita por Alan Moore, em que, para provar que era possível levar qualquer um à loucura, o Coringa atira em Barbara Gordon, a Batgirl, deixando-a em uma cadeira de rodas, e tortura seu pai, o Comissário Gordon, mostrando fotos de Barbara ferida. Há também insinuações de violência sexual.

É um evento traumático para Barbara, que acabou entrando para o cânone da DC (espécie de linha “oficial” das histórias, já que HQs de super-heróis tendem a ganhar reboots e universos alternativos o tempo todo), mas não tem a ver com a linha atual da série, que mostra a personagem de forma mais solar, com foco no público feminino jovem, misturando “elementos de Veronica Mars e ‘Girls’, com um pouco de Sherlock para dar um equilíbrio interessante”, nas palavras de Brenden Fletcher, um dos escritores.

Os próprios autores dessa nova Batgirl foram contra a capa, que afirmaram não condizer com o rumo que estão dando para a personagem, e Rafael entendeu isso, tendo ele mesmo pedido à DC para retirar sua arte.

Dos dois lados, os fãs se mobilizaram para manifestar opiniões divergentes: para alguns, a capa, além de não condizer com a série (o que é até comum dentro do universo de capas variantes), retrata a Batgirl no pior momento de sua trajetória e não faz jus à superação que veio depois, além de glamourizar a violência contra a mulher; para outros, retirar a capa foi uma decisão de censura contra a liberdade artística, deixando o “politicamente correto” tomar conta e não honrando o desejo dos fãs mais tradicionais e hardcore de quadrinhos.

Eu não achei a arte em si um problema. Ela retrata sim uma violência contra uma mulher, mas o faz de forma perturbadora, que vilaniza o agressor, além de poder servir justamente para levantar discussões sobre o assunto. Mas a briga entre os fãs me fez pensar em duas questões importantes.

Primeiro, a de que, no universo dos quadrinhos, as personagens femininas frequentemente servem apenas de “escada” para os heróis masculinos, e a violência contra elas –ou mesmo sua morte–, é uma forma de provocar abalos que podem mudar o rumo do personagem –vide a Gwen Stacy, primeira namorada do Homem-Aranha. Existe até um termo para isso: “mulheres na geladeira” (“women in refrigerator”). A capa do Rafael faz justamente menção a um episódio desse tipo, só que seria estampada em uma revista que tenta fazer o contrário: empoderar uma personagem feminina, algo que é super-importante para que as jovens leitoras tenham modelos legais nos quais se inspirar.

Segundo: as reclamações contra o politicamente correto geralmente vêm acompanhadas com comparações com o passado, quando os artistas supostamente “tinham mais liberdade”. Acontece que pensar assim é negar que a sociedade evolui, e que coisas que faziam sentido há 20 ou 30 anos já não fazem sentido hoje. Assim como as piadas racistas feitas por e com o Mussum dos “Trapalhões” nos parecem até estapafúrdias hoje, também não dá mais para encarar as personagens femininas dos quadrinhos como meras coadjuvantes dos heróis, abusadas e agredidas apenas par dar um novo sentido à existência deles.

Colocado tudo isso, talvez a questão mais importante que foi evidenciada por essa polêmica tenha a ver com esse segundo ponto e os defensores da “liberdade artística”, que, não por acaso, tendem a ser os leitores mais tradicionais de quadrinhos, o público majoritariamente masculino de fanboys: assim como os gamers do Gamergate, eles não estão dispostos a deixar a diversidade entrar em seu nicho, e isso inclui as mulheres. É por isso que não foram poucas as ameaças aos internautas que pediram para a DC cancelar a capa da “Batgirl”, e essa intolerância (que pende à misoginia) é bem preocupante.

Rafael Albuquerque felizmente não é um desses fanboys e entendeu o espírito do tempo. “A indústria de HQ sempre foi machista. É importante revermos nossos valores e nossas posições”, ele afirmou, em entrevista ao UOL. “É preciso aprender a ouvir, ter empatia por quem tem uma opinião diferente da sua. Se colocar no lugar do outro e considerar. Discussões na internet tendem a virar birras infantis, de um lado ou de outro”.

Como o artista aponta com perfeição, a indústria cultural como um todo precisa desesperadamente continuar revendo suas posições para incluir de forma mais saudável não só as mulheres, mas também todas as outras minorias. A Marvel também já entendeu isso e está ganhando $$$ com a nova Thor, .

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Um pensamento sobre “Por que a polêmica da capa de “Batgirl” interessa não só aos nerds

  1. Acho justamente o contrário. Piada Mortal e suas decorrências são uma trama de superação, uma mulher violentada em todos os sentidos que se ergue a ponto de tornar-se quase uma co-protagonista. Em sua evolução Barbara Gordon se torna uma consciência do Batman, não uma escada, mas um pilar essencial ao arco dramatúrgico da personagem, essencial à sua sanidade, como aliás as mulheres, conciliadoras como sempre, usualmente o são. Pra mim a questão da capa cancelada não tem nada a ver com machismo, feminismo, empoderamento da mulher ou qualquer coisa assim. É muito simples: numa linha editorial mais leve não cabe levar discussões como violência contra a mulher para o centro das tramas, e a capa insinuava isso. Ou seja, em certa medida a linha editorial atual presta mais um desfavor à causa feminina por simplesmente nega-la do que encarar que problemas existem e que as HQs são o vetor ideal para discuti-los. Como foi brilhantemente feito na década de 1970 com o arco de histórias do Arqueiro Verde e Lanterna Verde que passou a limpo a podridão americana do pós-guerra. O problema não é a capa. O problema é a covardia que vem tomando conta da linha tradicional da DC, legando à linha mais adulta os questionamentos que antes estavam espalhados, ainda que superficialmente, por todo o universo DC.

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