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“Cinquenta Tons de Cinza” é um filme para mulheres, mas suas cenas de sexo são para os homens

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Se você ainda não está em Salvador se preparando para pular no meio da pipoca, ou em um retiro espiritual isolado do espírito carnavalesco, o assunto que mais vai ouvir falar esta semana é a estreia de “Cinquenta Tons de Cinza”, filme baseado no best-seller de E.L. James.

O livro, que vendeu mais de 100 milhões de cópia em todo o mundo apesar de muito mal escrito, causou furor pelas cenas de sexo sadomasoquista light que descreve com a elegância de um folhetim comprado em banca de jornal –e a adaptação cinematográfica é aguardada com a mesma devoção.

Mais esperadas do que o filme em si, talvez, sejam as cenas de sexo, especialmente depois da materialização de Christian Grey, o jovem milionário adepto do S&M, na forma do gatíssimo ator irlandês Jamie Dornan (da série “Tha Fall”).

Mas você não deve se empolgar, amiga leitora. O filme foi feito para alcançar uma censura mais branda do que o temido “proibido para menores de 18 anos” e, por isso, as cenas de sexo são mais minguadas do que no livro, mais prolífico em clichês-românticos-água-com-açúcar do que em cenas capazes de fazer as leitoras enrubescerem –verbo do qual a protagonista Anastasia Steele abusa.

São apenas quatro as cenas quentes, que tomam talvez 20 minutos das duas horas do longa. E quando elas chegam, são uma grande decepção.

Em primeiro lugar, porque elas não foram feitas para mim ou para você, potenciais fãs do livro, mas para o homem heterossexual que Hollywood acredita ser seu espectador médio. Sim, um filme supostamente feito para mulheres tem cenas de sexo com uma estética para lá de machista.

Enquanto a atriz Dakota Johnson balança seus mamilos para as câmeras por longos minutos, o máximo que vemos de Dornan na maior parte do tempo são suas costas nuas –e que costas, vale apontar. Justamente por isso ficamos querendo mais, e não recebemos.

A câmera segue indubitavelmente um olhar masculino: passeia pelo corpo de Johnson com desenvoltura, mostrando até pelos pubianos algumas vezes, enquanto exibe apenas lampejos da bunda redonda de Dornan. Do pau, apenas sombras, em dois momentos tão rápidos que quem piscar vai perder.

É isso que Hollywood segue ensinando: o corpo da mulher deve ser exibido, para o deleite dos homens, mas os genitais masculinos são proibidos. Afinal, as mulheres não devem ser seres sexuais, não convém que pensem em sexo de forma tão explícita. É essa mensagem do filme, ainda que a autora do livro defenda que as mulheres já conquistaram o direito de ter fantasias.

As cenas do longa até são mais elegantes do que as do romance, mas os cortes rápidos, a trilha pop óbvia e os closes clichês de costas arqueadas e pés se retorcendo mais atrapalham o erotismo do que ajudam.

Quanto ao sadomasoquismo, o ponto que supostamente deveria distinguir livro e filme da massa, bem, em uma crítica benevolente, poderia-se dizer que ele é light, adequado às sensibilidades do grande público. Mas a crítica mais dura, e que precisa ser feita, é a de que ele faz parte de uma dinâmica doentia do relacionamento entre Grey e Anastasia.

Que fique claro que o S&M em si não é nada doentio. Mas, aqui, usa-se as preferências sexuais de Christian como desculpas para um comportamento abusivo. Ele é controlador, quase um stalker. Investiga a rotina de Ana e aparece nos lugares onde ela está de surpresa. Dá presentes caros e tenta controlar o que ela come e como se exercita. Quer que ela seja sua submissa mesmo estando claro que ela não curte muito sentir dor.

Isto não tem nada a ver com sadomasoquismo –prática em que dominador e submisso agem de forma consensual– e com explorar os limites do sexo. É um comportamento obsessivo, que no livro ganha a tacanha explicação de que controlar tudo à sua volta é como Grey lida com seus traumas de infância, que envolvem uma mãe viciada em crack e morta quando ele tinha quatro anos.

São coisas muito danosas se levadas a sério como modelos de relacionamento, que seriam muito problemáticas na vida real. Mas o sucesso do filme é inevitável, principalmente por apelar para fantasias românticas muito comuns às mulheres (escrevi mais sobre isso no UOL). Então, vale pedir discernimento. E ninguém vai te julgar se este for o seu guilty pleasure da vez. 😉

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