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“BBB15” mostra que violência contra a mulher ainda é banalizada

3.fev.2015 - Douglas conta no "BBB15" que deu um soco em uma ex-namorada (Reprodução/TV Globo)

3.fev.2015 – Douglas conta no “BBB15” que deu um soco em uma ex-namorada (Reprodução/TV Globo)

Não bastava ter um stalker, a produção do “BBB15” conseguiu selecionar também um agressor de mulher –e um que não acha problema algum contar isso mesmo em uma casa vigiada por câmeras 24h por dia.

Tenho várias restrições ao programa –do formato ao perfil dos selecionados e selecionadas– mas é inegável que ele ocupa um espaço importante na cultura pop brasileira e, portanto, o que acontece lá dentro, com o país inteiro assistindo, não pode ser simplesmente classificado como “bobagem”.

Depois das denúncias de que Adrilles passa a perseguir as mulheres que o rejeitam –além de possivelmente ter impedido o casamento de uma colega de trabalho por quem era apaixonado– foi a vez de Douglas, 29, contar suas “façanhas” no programa.

Segundo o UOL, no início da madrugada o motoboy contou aos outros brothers que, quando tinha 20 anos, bateu em uma ex que passou a persegui-lo e, em certa ocasião, cuspiu bebida em sua cara. “Pegou o goró com gelo e virou pro lado e cuspiu na minha cara. Dei um soco só e ela desmaiou”, disse.

Para ficar ainda pior, esta não teria sido a única vez: em outra ocasião, ao encontrar a garota entre um grupo de amigos, ela queimou Douglas com um cigarro. Ele chegou a ensaiar ir embora, mas mudou de ideia e voltou para agredi-la. “Ela veio e falou ‘duvida eu apagar o cigarro?’. Veio, apagou e tenho a cicatriz até hoje. Eu levantei, fui até o carro e falei tchau para a galera. Quando eu entrei no carro, pensei, está errado. Ela não pode fazer isso, eu voltei e quebrei ela, só na cara”, contou.

Se a violência tivesse sido praticada contra qualquer pessoa, já seria um absurdo. Mas o fato de alguém achar ok contar uma história dessa na TV apenas demonstra o quanto a violência contra a mulher ainda é banalizada. Talvez, na cabeça de Douglas, a garota tenha merecido, o que automaticamente absolveria sua agressão.

E foi exatamente isso que ficou parecendo depois do brother tecer seus comentários sobre a história: “Paciência tem limite. Se fosse hoje, ela iria na delegacia, daria queixa da Maria da Penha e eu iria de bom grado e falaria: ‘Eu bati’. Estourou minha paciência. Eu ficaria um mês preso, eu pagaria cesta básica, não deveria ter batido”.

Tanto o caso de Douglas quanto o de Adrilles se inserem em uma cultura que ainda acredita que as mulheres “devem” algo aos homens: atenção e sexo, no caso de Adrilles, e respeito, no caso de Douglas. Não, não e não. É preciso que a sociedade mude, mas enquanto isso não acontece, as leis deveriam impedir os efeitos nocivos dessa mentalidade. O que também não vem acontecendo.

Douglas só contou o caso porque sabe que está a salvo da justiça e até do julgamento moral de seus pares e do público. Talvez até ganhe a simpatia de parte dos espectadores que, aberta ou veladamente, acreditam na legitimidade de atitudes que coloquem as mulheres “em seu devido lugar”. No mínimo, no mínimo, a fala de Douglas demonstra o quanto a lei –e sua aplicação– ainda é branda com os agressores, para quem a punição talvez até valha a pena, diante da possibilidade de poderem “lavar a honra”.

O assunto é muito sério: segundo dados do IBGE, foram registrados em média mais de 60 mil casos de violência contra mulheres por ano entre 2009 e 2010, incluindo violência física, sexual, psicológica, moral e outros tipos de agressão.

Já que fez a cagada de não entrevistar seus participantes direito –ou achar que daria audiência levar um stalker e um agressor para a casa do “BBB”–, a Globo no mínimo deveria dar aos brothers uma “aulinha” sobre violência contra a mulher, como já fizeram sobre HIV no “BBB14”. E o público tem a obrigação de não deixar Douglas voltar do paredão da noite desta terça (3), para mandar o recado de que agressor nenhum merece espaço na mídia, só na cadeia. Estamos de olho.

[Vale relembrar, caso infelizmente ainda não seja óbvio, que a vítima NUNCA é culpada pela agressão. Mesmo que a garota tenha perseguido, cuspido ou queimado com cigarro –o que pode nem ser verdade, pois só sabemos a versão do agressor–, a única resposta cabível de Douglas seria um BO. “Revidar” é crime sim.]

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