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Vamos falar sobre as mulheres no cinema nacional?

A atriz Dira Paes recebe homenagem na Mostra de Cinema de Tiradentes (Divulgação)

A atriz Dira Paes recebe homenagem na Mostra de Cinema de Tiradentes (Divulgação)

A gente sabe que a situação das mulheres no cinema não é das melhores. O Oscar taí para provar: nenhuma mulher indicada ao prêmio de direção, nenhuma produção protagonizada por uma personagem feminina, nenhuma roteirista selecionada. Se formos para o universo dos blockbusters hollywoodyanos, então, a coisa também está feia: segundo uma pesquisa da Universidade de San Diego, o número de diretoras à frente das 250 maiores bilheterias americanas caiu 2% em 17 anos. E isso porque o filme mais rentável por lá em 2014 foi “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1”, protagonizado por uma mulher.

Por aqui, a coisa também não é muito diferente. De acordo com outra pesquisa do ano passado, apenas 37,1% dos personagens e 20% dos protagonistas de cinema no Brasil são mulheres, apesar de uma aparente, mas falsa onda feminista nas nossas telas.

Se ainda há muito no que avançar, pelo menos o assunto caiu na boca do povo, o que já um primeiro passo, e tem sido debatido amplamente na mídia e por personalidades do cinema. Foi o que fez a atriz Dira Paes, que falou durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, no qual é homenageada:

“O protagonismo masculino é superior, com mais filmes com temáticas masculinas do que femininas. A questão de gênero precisa de um olhar futurista, porque hoje não dá para falar da sociedade em masculino e feminino, mas em ser humano”, acredita a atriz.

Ela também ressaltou o quanto as mulheres ainda estão associadas a determinados estereótipos: “É preciso descolar a mulher do papel sentimental. A mulher pensa, age independentemente de suas emoções”, disse a atriz, que também pede que os papéis femininos deixem de ser coadjuvantes dos personagens masculinos. “Eu quero ver a mulher em relação ao mundo, não ao homem”.

[com colaboração do Edu Fernandes, do Cine Dude]

Cena do filme "Amor, Plástico, Barulho", de Renata Pinheiro

Cena do filme “Amor, Plástico, Barulho”, de Renata Pinheiro

Diretoras

Não é só nas telas que o espaço das mulheres vem sendo debatido. Graças a veteranas e a uma nova geração, o papel das mulheres atrás das câmeras também tem sido assunto de discussão, e a impressão que fica é de que elas estão ganhando espaço.

Apesar de ainda termos 1,7 homem para cada mulher atrás das câmeras no Brasil e de apenas 9,1% dos filmes de maior destaque serem dirigidos por mulheres, em 2015 estão previstos mais de dez produções nacionais comandadas por mulheres, a começar por “Amor, Plástico, Barulho”, de Renata Pinheiro, que estreou na última quinta (22).

Além de “Amor, Plástico, Barulho”, ainda chegam aos cinemas neste ano filmes de Juliana Rojas (“Sinfonia da Necrópole”), Júlia Rezende (“Um Namorado para Minha Mulher”, “Meu Passado me Condena 2” e “Ponte Aérea”), Cris D’Amato (“Linda de Morrer”), Cláudia Jouvin (“Um Homem Só”), Marina Person (“Califórnia”) e Susanna Lira (“Damas do Samba”), entre outras.

Em comum, elas têm o desejo de quebrar com o rótulo de “cinema feminino”, enfatizando que as questões colocadas pelas mulheres também são universais.

“O filme vem para quebrar preconceitos em relação à musica e às mulheres também”, disse Renata Pinheiro ao UOL sobre seu longa, que é centrado em duas cantoras do universo do brega. “Contribui para entender o papel da mulher na sociedade, mas sem rótulos. A mulher não é isso ou aquilo. A mulher é tudo.”

Na mesma reportagem, da minha colega Mariane Zendron, a cineasta Juliana Rojas, que já havia co-dirigido “Trabalhar Cansa” e agora lança “Sinfonia da Necrópole”, demonstrou desconforto com o rótulo de “cinema feminino”: “Você não diz [para um diretor homem]: ‘isso é um cinema masculino’, mas sempre tem essa visão quando é a obra de uma mulher. Define-se o que é o feminino. Como se o feminino partisse de uma diferença do geral, do masculino”.

Ainda que essa distinção seja nociva e que, numa situação ideal, as questões femininas devessem ser encaradas como universais, a solução talvez passe justamente por mulheres continuarem fazendo cinema, e colocando a ótica feminina no centro.

“Os meus filmes têm personagens femininos em destaque porque eu acho importante discutir o papel da mulher na sociedade, pela pressão de ser mulher, mãe. É um gênero ainda muito oprimido. Isso sempre gera reflexões importantes e representa bem o que é uma sociedade”, afirmou Rojas ao UOL.

Na revista Serafina, da Folha, que juntou Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Marina Person e Renata Pinheiro para falar das mulheres no cinema, a diretora de “Chega de Saudade” também afirmou que o cinema pode ajudar a combater o machismo colocando mais mulheres nas telas. “Ele não tem a mesma força do programa de televisão, mas, aos poucos, influencia a novela, a propaganda e pode tornar um tema popular. Afinal, a favela só foi mesmo para a TV depois de ‘Cidade de Deus'”, disse Bodanzky.

Ela recomenda a mesma receita para diminuir a desigualdade atrás das câmeras: “Cada vez mais, percebo que é importante colocar um holofote sobre as mulheres. Nós aprendemos observando os outros. As poucas mulheres que estão fazendo cinema podem inspirar as que estão chegando”, acredita.

E o mercado tem demonstrado que a receita pode também ser sucesso de público e crítica. A maior bilheteria de 2014 no Brasil foi “A Culpa É das Estrelas”, seguida por “Malévola”, dois filmes centrados em mulheres. E um filme nacional centrado em uma questão muito feminina –a vida de uma trabalhadora doméstica e sua relação com os patrões– abriu o ano sendo selecionado para dois importantes festivais internacionais, Sundance e Berlim.

“Que Horas Ela Volta?”, estrelado por Regina Casé e dirigido por Anna Muylaert, foi elogiado pela revista The Hollywood Reporter, que escreveu: [“o filme] não só passa no teste de Bechdel com louvor, mas também disseca com precisão e humor assuntos como diferenças de classe, mães x babás, e se privilégio e a posição de um indivíduo são coisas passíveis de questionamento ou mudança”.

Estamos de olho 😉

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