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Por que Katniss Everdeen, de “Jogos Vorazes”, é a heroína de ação mais interessante do cinema atual

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Como se não bastasse ter se tornado a heroína de ação mais lucrativa do cinema, segundo o “Guinnes Book”, Katniss Everdeen também vem se firmando como a personagem mais interessante entre as franquias recentes voltadas para o público jovem –e mesmo entre os filmes de ação mais adultos.

Em um lucrativo filão –que faz os olhos dos executivos de cinema brilharem desde o sucesso de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (2001), mas que também amargou grandes fracassos– a protagonista de “Jogos Vorazes”, na interpretação de Jennifer Lawrence, apresenta um nível de complexidade que dificilmente é visto em filmes do gênero.

“Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1”, primeira parte do capítulo final da saga inspirada nos livros de Suzanne Collins, que estreia nesta quarta-feira (19), reafirma esta complexidade.

No filme, encontramos Katniss sofrendo de estresse pós-traumático depois de ser resgatada da edição especial que reuniu os campeões dos Jogos Vorazes. Cobiçada como símbolo de uma revolução pelos rebeldes do Distrito 13 (que todos acreditavam ter sido destruído pela Capital), ela oscila entre a raiva daqueles que tentam manipulá-la e a compaixão por todos que sofrem com os abusos comandados pelo presidente Snow (Donald Sutherland) –e que se espelham nela para ter esperança. Além disso, ainda sofre com a culpa por, com suas ações, colocar em perigo seu companheiro de jogos, Peeta (Josh Hutcherson), que é mantido prisioneiro pela Capital.

Esta situação reitera os múltiplos papéis que Katniss desempenha em seu mundo, e que são difíceis de ver reunidos em uma personagem feminina: ela é atleta, celebridade midiática, guerreira, provedora de sua família, amiga leal e potencial namorada (de Peeta ou Gale), habitando ao mesmo tempo esferas consideradas femininas e masculinas. Mesmo o elemento de romance, que está mais ligado a afeto e lealdade, é secundário, porque Katniss tem coisas muito mais importantes com que se preocupar.

Isto é ainda mais notável se considerarmos que, no cinema de Hollywood, a maior parte das personagens ainda é reduzida a tipos –mãe, filha, esposa, vítima–, tudo que Katniss não é.

Nenhuma de suas “companheiras” no gênero de sagas teen consegue se igualar a isso: o dilema de Bella Swan (da “Saga Crepúsculo”) é basicamente escolher entre o lobisomem e o vampiro como par romântico; Hermione é coadjuvante de Harry Potter, apesar de ser uma personagem interessante; mesmo a Tris (“Divergente”) de Shailene Woodley não consegue se igualar, já que a adaptação cinematográfica do livro deixa a desejar, parecendo uma mistura de elementos que já foram melhor explorados em outras franquias.

Katniss difere até das duronas mais famosas do cinema –a Ripley de “Alien” (Sigourney River) e a Sarah Connor de “O Exterminador do Futuro” (Linda Hamilton)–, cuja ira é justificada por um brutal instinto maternal. A protagonista de “Jogos Vorazes” não é movida por instintos femininos, mas também não os nega. Nesse sentido, é um tipo novo de heroína de ação.

Talvez a personagem mais próxima da Katniss dilacerada que vemos em “A Esperança” seja a Lisbeth Salander (Rooney Mara) de “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, filme (e livro) voltado para o público adulto, o que só prova que “Jogos Vorazes” é mais sombrio, complexo e violento do que as outras franquias para jovens.

E violência é o que não falta em “A Esperança”, agora que passamos do campo do reality show homicida para o da rebelião. As batalhas reais devem ficar para a segunda parte, mas não faltam lembretes de que estamos em um mundo brutal: ossadas de milhares de pessoas mortas na terra natal de Katniss, ataques a um hospital cheio de feridos, personagens transtornados depois de serem torturados.

A mensagem do filme também é muito mais complexa do que costumamos ver em blockbusters feitos para render rios de dinheiro aos estúdios, especialmente se considerarmos que o público alvo são os adolescentes. Ainda é uma alegoria do totalitarismo e da exploração e manipulação de massas em nome de um “bem maior”, mas entramos em uma zona mais cinzenta.

Estamos diante de uma guerra midiática que não é mais monopólio da Capital, os vilões, mas também é travada pelos rebeldes. Mesmo aqueles os “bonzinhos” da história usam de manipulação para avançar sua causa –e o Plutarch Heavensbee de Philip Seymour Hoffman é o símbolo máximo disso, sempre pensando em como ampliar o alcance da mensagem dos rebeldes. Ninguém é inocente e desconfiamos até das intenções da fria líder rebelde, a presidente Coin (Julianne Moore).

É um cenário sombrio para Katniss, e Jennifer Lawrence entrega uma atuação precisa de uma Katniss sempre à beira do colapso, engrandecida ainda pela presença de Seymour Hoffman e Moore. Provando mais uma vez por que é uma das atrizes mais cotadas da nova geração, Lawrence também mostra que a franquia que a lançou ao estrelato é das coisas mais interessantes que se fez para os jovens nos últimos anos.

[aqui o texto original, com algumas diferenças, publicado no UOL Cinema]

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3 pensamentos sobre “Por que Katniss Everdeen, de “Jogos Vorazes”, é a heroína de ação mais interessante do cinema atual

  1. Estou adorando seu blog, preciso comentar mais!
    Você destrincha muito bem pontos que me chamam a atenção na cultura pop mas eu não paro para elaborar.
    Como essa frase, por exemplo: “A protagonista de “Jogos Vorazes” não é movida por instintos femininos, mas também não os nega. Nesse sentido, é um tipo novo de heroína de ação”.
    Fui ver o filme ontem e acabou sendo meu favorito dos Hunger Games até agora. O primeiro eu achei divertido, o segundo interessante e esse agora eu achei bom mesmo.
    Não gosto dessas sagas político-fantásticas e não estava levando a história muito a sério até esse terceiro filme. A Katniss conseguiu ser complexa o suficiente para me inserir no contexto e me levar junto na história.

    Curtido por 1 pessoa

    • Acho justamente que é a personagem da Katniss que torna Jogos Vorazes mais interessantes do que outras sagas do gênero. Ela é muito humana, meio antissocial, meio sem jeito, não se esforça para ser agradável, e por isso é muito verossímel, além de destoar da maior parte das personagens femininas do cinema. E que bom que você está gostando do blog! 🙂

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  2. Pingback: Resumo feminista da semana: Fernanda Gentil, Ilze Scamparini, Emma Watson e os filmes “de mulher” | bitch pop

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