cinema/literatura

É justo dizer que “Garota Exemplar” é um filme/livro machista?

Rosamund Pike e Ben Affleck em cena de "Garota Exemplar", de David Fincher

Rosamund Pike e Ben Affleck em cena de “Garota Exemplar”, de David Fincher

Vou entrar com um pouco de atraso na discussão, mas só esta semana consegui terminar de ler “Garota Exemplar”, de Gilliam Flynn, depois de já ter visto o filme de David Fincher.

Tirando o momento em que supostamente aparece em cena o pênis do Ben Affleck (que eu sinceramente não consegui ver), o que mais me chamou atenção no filme é o quanto ele perde em profundidade em relação ao livro –e o quanto isso o torna uma história machista.

É claro que uma adaptação para o cinema tem que deixar algumas coisas de lado, mas a maneira como isso é feito tira muitas camadas psicológicas dos personagens e deixa o filme com alguns problemas.

Para quem não sabe, “Garota Exemplar” —o livro e o filme— acompanha Nick Dunne (Ben Affleck) depois que sua mulher, Amy (Rosamund Pike), desaparece no dia do quinto aniversário de casamento dos dois. No livro, parte da história é narrada por Nick, e outra parte aparece através de um diário de Amy. O filme adota a perspectiva de Nick, e insere alguns trechos do diário como contraponto.

ATENÇÃO: SPOILERS! SE VOCÊ NÃO QUER SABER DETALHES DA TRAMA, NÃO CONTINUE A LER A PARTIR DESTE PONTO.

O que descobrimos conforme a trama avança é que o desaparecimento de Amy faz parte do plano desta mulher rica e mimada para incriminar Nick por seu assassinato, parte de um plano para se vingar dele por ser um marido inútil e tê-la traído. O plano inclui falsas acusações de agressão, estupro, um assassinato cometido por ela e uma gravidez cuidadosamente planejada para prendê-lo a ela.

Quando o livro saiu, em 2012, Flynn já havia sido acusada de ter reunido em sua personagem a cristalização de uma miríade de medos misóginos sobre o comportamento feminino –Amy pode ser vista como uma castradora, que se aproveita da imagem de vítima das mulheres abusadas para punir um homem.

Por outro lado, o livro também traz reflexões interessantes sobre os papéis que a sociedade impõe às mulheres, da “garota legal”, amada pelos homens por deixá-los mais livres e acompanhá-los em seus gostos, à esposa devotada e, depois, à vítima de abusos. Amy interpreta esses papéis com propósitos muito específicos, subvertendo o que a sociedade geralmente faz com as mulheres e usando-os a seu favor.

O discurso sobre a Garota Legal é um dos melhores exemplos disso. Ela diz: “Ser a Garota Legal significa que eu sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga video game, bebe cerveja barata, adora ménage à trois e sexo anal e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se fosse anfitriã da maior orgia gastronômica do mundo ao mesmo tempo em que de alguma forma mantém um manequim 36, porque Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas”.

Com a ironia dessas palavras, Amy destrói a imagem de mulher “emancipada” como mais um papel imposto pela sociedade para servir aos desejos dos homens (não que uma mulher não possa de fato comportar essas características; estamos falando aqui de quando isso se torna um padrão desejável a ser seguido). E é um papel que ela também se viu forçada a interpretar, mesmo que de forma mais calculista que a maioria das mulheres.

No livro, tudo é feito com muitas nuances psicológicas, que nos impedem de ver Amy como apenas uma “piranha psicótica”, e coloca Nick como o outro lado dessa psicose, quase tão doente quanto ela.

Mas no filme, que tem roteiro de Flynn, muitas dessas camadas desaparecem. Mesmo a passagem da Garota Legal se torna machista, pois é transformada em uma acusação de Amy às mulheres que agem assim, em especial à jovem estudante com quem Nick a traiu.

A Amy da tela acaba se tornando um empilhamento de estereótipos negativos sobre as mulheres: manipuladora, dissimulada, descontrolada, vingativa, impossível de satisfazer. Uma verdadeira “piranha psicótica”, da mesma linhagem de “Atração Fatal” e “Louca Obsessão”, mas mais evoluída, por que sua loucura não está sujeita a um homem, é uma espécie de narcisismo totalitário, uma brincadeira de Deus para moldar a realidade aos seus interesses.

A falta de insight sobre a complexidade psicológica da personagem é tanta que fica difícil, no filme, compreender por que Nick aceita ficar com ela no final, mesmo considerando a gravidez —algo que fica mais claro no livro, pois sabemos que a relação entre os dois é complementarmente doentia.

Gilliam Flynn alega que seu livro avança a casa feminina ao tirar a mulher do estereótipo de inerentemente boa e maternal, e atribuir a ela o tipo de maldade calculista e egoísta que geralmente só os vilões homens têm.

Poderia até ser o caso se estivéssemos diante de um horizonte artístico (na literatura e no cinema) que contemplasse todas as possibilidades da experiência feminina, mas sabemos que não é bem assim.

No entanto, como há tão poucas mulheres fortes na cultura pop, os filmes e livros que tomam para si a tarefa de nos representar acabam também com o fardo de representar tudo o que significa ser mulher. O que obviamente não é uma situação justa, pois deveria ser possível termos na literatura, cinema e TV todos os tipos de mulheres, assim como temos todo tipo de homens.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s