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Onda feminista no cinema nacional? Não é bem assim

Mônica Martelli em cena de "Os Homens São de Marte... E É Pra Lá Que Eu Vou"

Mônica Martelli em cena de “Os Homens São de Marte… E É Pra Lá Que Eu Vou”

O UOL Cinema publicou hoje uma reportagem da Silvana Arantes sobre o avanço das mulheres entre o público de cinema no Brasil e entre os temas dos filmes mais vistos. Eu já tinha comentado rapidamente sobre isso em um texto da semana passada, onde citei que as mulheres já são 52% do público de cinema no país (dado de 2012) e dominam a lista de filmes mais vistos do ano, com “A Culpa É das Estrelas” e “Malévola” no topo, somando mais de 11,9 milhões de ingressos vendidos, um terço da soma do público de todo top 10 deste ano.

Além disso, “Os Homens São de Marte… e É para Lá que Eu Vou” e “S.O.S. – Mulheres ao Mar” –dois filmes em que os homens são apenas coadjuvantes–, ocupam o segundo e terceiro lugares do ranking de lançamentos nacionais, atrás apenas de “O Candidato Honesto”. As duas produções juntas representam cerca de 22% do total de público que assistiu a um dos 89 filmes nacionais lançados em 2014, até o fim de outubro. São 3,5 milhões de espectadores(as) de um total de 15,9 milhões.

Apesar do cenário parecer promissor, é duvidoso falar em uma “onda feminista” no cinema nacional. Como aponta a cineasta Sandra Werneck, que está preparando “O Pequeno Dicionário Amoroso 2”, grande parte dos filmes centrados em mulheres, sejam nacionais ou internacionais, ainda reforçam os padrões de beleza como prerrogativa do sucesso feminino. “Se você ficar olhando a internet, o Twitter, a mídia, parece que só mulher bonita chega lá”, disse Sandra ao UOL.

Além disso, nos sucessos do cinema nacional se vê de forma mais forte do que nos do cinema estrangeiro a reprodução de estereótipos negativos sobre as mulheres, como o da mulher louca por um marido. Além disso, as vidas das personagens parecem quase sempre girar em torno dos homens. Mesmo quando elas são mulheres independentes e bem-sucedidas, há sempre a busca de um homem para completar o cenário, como se não fosse possível ser feliz de outra maneira.

É exatamente esse o caso de “Os Homens São de Marte… e É para Lá que Eu Vou” e “S.O.S. – Mulheres ao Mar”. No primeiro, dirigido por Marcus Baldini, Mônica Martelli é uma mulher bem-sucedida profissionalmente, que se envolve em mil confusões enquanto busca um marido para chamar de seu. Ela se envolve com vários homens, mas o único que fica, o seu “príncipe encantado”, é justamente aquele com quem não vai para a cama no primeiro encontro –menos feminista impossível.

Já em “S.O.S. – Mulheres ao Mar”, dirigido por Cris D’Amato, o que move a protagonista é a tentativa de recuperar o marido, que a traiu, e se vingar da rival. Assim, ela acaba embarcando em um cruzeiro, onde, previsivelmente, conhece outro homem, muito melhor do que o primeiro.

Nada contra o romance –os relacionamentos são importantes na vida de qualquer ser-humano–, mas c0mo ainda é uma minoria de filmes que tem mulheres como protagonistas, ver quase todos eles se centrarem nessa questão ajuda a distorcer a posição que as mulheres devem ter na sociedade.

Nas produções estrangeiras que fizeram sucesso por aqui e no mundo todo, a situação está um pouco melhor. “Malévola”, por exemplo, subverte a ideia do “amor verdadeiro” e foca a relação da fada má com a princesa, transformando o príncipe em mero coadjuvante. “Frozen”, a animação mais vista de todos os tempos, também dá esse passo de se concentrar na relação de duas irmãs, e coloca a figura do príncipe novamente em maus lençóis.

“Jogos Vorazes”, que emplacou Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) como a heroína de ação mais rentável da história do cinema (com US$ 1,5 bilhão de bilheteria, somando os dois primeiros filmes) também vai na mesma direção. Katniss –que se torna líder involuntária de uma revolução depois de sobreviver a um perverso reality show em que vence quem sobrevive– é muito mais decidida e forte do que a maior parte de seus pares masculinos. Um de seus pares românticos (sim, é um triângulo amoroso), Peeta (Josh Hutcherson), é a verdadeira “mocinha” da franquia, que Katniss guia e salva em diversas ocasiões.

Se Hollywood parece ter começado a entender que a fórmula para atrair o público feminino não é só dar espaço para as mulheres nas telas, mas mostrá-las de forma empoderante, no Brasil o cinema parece tratar as mulheres da mesma forma que a publicidade, como clientes em potencial, que precisam ser fisgadas de qualquer maneira, sem grandes preocupações com o conteúdo. Acredita-se que são elas que escolhem o filme para o “cineminha” a dois e, por isso, como explica ao UOL o presidente do Sindicato dos Distribuidores Cinematográficos do Rio de Janeiro, Jorge Peregrino, as comédias brasileiras também seguem a tendência de “tornar o filme mais palatável para todos os espectros”. Apenas isso.

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2 pensamentos sobre “Onda feminista no cinema nacional? Não é bem assim

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